Homo ludens ©
Categoria: Literatura

Não sei se em criança brinquei pouco ou se brinquei demais. O que sei é que em mim a vontade de brincar é irrefreável. Se brinquei pouco, é justo que eu siga brincando. Se brinquei demais, continuo brincando justo por saber o quanto é bom brincar. Tenho dúvida se sou um homo sapiens. Tenho certeza de ser um homo ludens. Ou homenino – homem e menino ligados para sempre. Divido a minha vida em primeira infância, segunda infância e terceira infância. Agora estou em plena segunda infância. Diz o Rubem Alves que, vida afora, carregamos duas caixas: uma de ferramentas, outra de brinquedos. É verdade. Mas posso dizer que só abro a caixa de ferramentas forçado. Já a caixa de brinquedos mantenho sempre aberta. Lembro que desde bem pequeno eu já tinha grandes responsabilidades. Por exemplo, tomar conta da casa enquanto minha mãe lavava/passava roupa pra fora. O drama era que eu não conseguia brincar depois de cumprir as obrigações. Eu queria brincar antes. E brincava. Quando era quase hora de minha mãe chegar, eu tinha de correr para dar conta de tudo. Claro que não dava. E era sermão na certa. No outro dia, tudo se repetia tal e qual. Por conta disso, o meu brincar nunca era/é sossegado. Tenho sempre a sensação de que estou burlando uma obrigação – e estou, tanto na meninice quanto agora. Não adianta saber disso: o imperativo de brincar sempre fala mais alto. E algo me diz que estou certíssimo em ceder a esse imperativo. Brinco porque preciso. Brinco porque é preciso. É preciso brincar até o fim.

© Nota de canapé: Livro de Johan Huizinga.


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