Construção ©
Categoria: Música

Neruda disse: “Escrever é fácil. Começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto-final. No meio você coloca as idéias”. Depois de escrito, eis a representação exata de um texto. Mas todos sabemos, e Neruda também, que essa aparente facilidade esconde o seu oposto. O produto da escrita pode resultar simples, fácil, mas a escrita em si mesma nada tem de fácil e simples. A escrita implica um mínimo (ou muito) de cálculo, de plano, de desenho. É uma construção que se ergue com o tijolo da palavra e com muita, mas muita mesmo, paciência. Por mais que se saiba manejar o material da escrita, a construção de um texto é sempre trabalhosa. É preciso obedecer a uma planta, mesmo sendo uma planta traçada unicamente na memória. Os tijolos da palavra são dos mais variados formatos e dos mais imprevistos efeitos. Daí que a construção de um texto esteja sujeita aos mais variados arranjos, nela cabendo toda sorte de interferências. Contudo, as interferências não podem comprometer o cálculo prévio, pois aí se trataria de uma outra obra, um outro texto. E assim vai o construtor erguendo seu texto, palavra por palavra, “tijolo com tijolo num desenho mágico”. E cada texto seu é como se fosse o primeiro. Nada garante que o construtor chegará ao fim de sua obra. Às vezes acontece de o texto morrer na contramão atrapalhando a página. Aí não tem jeito: é abandoná-lo sem dó. O construtor-escritor vive cercado de ruínas verbais. A sorte é que se trata de ruínas vivas, ou reaviváveis por um sopro criador. De um texto nada se perde. E é sempre uma alegria quando se chega ao fim da construção. Aí o abnegado construtor-escritor senta pra descansar como se fosse sábado, flutua no ar como se fosse um príncipe. Entretanto, a alegria dura pouco. Não demora e o construtor-escritor estará erguendo os andaimes de um novo texto, zelando para que sua obra não se acabe no chão feito um pacote flácido.

© Nota de canapé: Canção do Chico Buarque.


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