Espelho mágico ©
Categoria: Televisão

Dezoito de setembro de 1950: o dia da primeira transmissão da pioneira TV Tupi, o dia em que a TV entrou na vida dos brasileiros – poucos brasileiros, diga-se. Por um bom tempo, a TV foi artigo de luxo. Na minha vida mesmo a TV só chegou ali pelos oito, nove anos. Chegou na minha vida, mas não na nossa casa. Na nossa casa ela só entrou perto dos meus dezoito anos. Antes disso, cheguei à TV pela janela de alguns vizinhos. E porque os vizinhos eram acolhedores, não demorou para que eu chegasse à sala de suas casas. Assim por muito tempo – nove anos na vida de quem tem nove anos é uma quase eternidade. Não condição de televizinho, era preciso selecionar bem o programa preferido para importunar o mínimo possível o dono daquela caixa encantada. A preferência maior era por novelas, mas tudo seduzia naquele espelho mágico. As novelas eram acompanhadas com devoção quase religiosa. E algumas cenas provocavam na assistência incontidas vibrações de entusiasmo ou de torcida pelo herói ou heroína. Vale dizer que a assistência era, em geral, numerosa, pois congregava vários outros vizinhos.

Daquele início até hoje, a popularidade da TV nunca deixou de crescer. E hoje a qualidade técnica da nossa televisão é imbatível. Da qualidade artística, no entanto, não se pode dizer o mesmo. Ainda assim, o espelho mágico não deixa de encantar. Quanta emoção já vivi, quanta beleza já vi emoldurada naquela tela!! Incontáveis novelas, séries, minisséries, especiais, programas musicais, programas de auditório etc. Aqui é o país da televisão. Dizendo melhor: aqui é o paraíso da televisão. Tamanha é a presença da televisão na vida do brasileiro, e tamanha a sua influência, que há quem se dedique a estudar o fenômeno denominado telemorfose, uma conseqüência do poder que tem a TV de moldar/ditar comportamentos. Fala-se muito do baixo nível da nossa TV. E já se falava bem antes dos dias atuais. Lá nos idos de 68, o nível da TV já era pauta das discussões de intelectuais. Nelson Rodrigues, que gostava de televisão, saiu em sua defesa. Com a mais límpida e casta objetividade, ele dizia que o nível das nossas TVs era muito relativo. E completava, certeiro: “Acusamos o nível das emissoras e ninguém fala do nosso. Há uma reciprocidade de níveis. A televisão é assim porque o telespectador também o é. Uma coisa depende da outra e as duas se justificam e se absolvem”. Não há o que objetar. Afinal, a TV tem de espelhar o espetáculo do mundo e nele há miséria e maravilha. Mas eu, que continuo gostando de TV, bem que gostaria que aquele espelho mágico espalhasse mais o luxo da beleza. Nós precisamos. E repito com Adélia Prado: “Beleza não é luxo. É necessidade!”. Quem sabe um dia?!

© Nota de canapé: Telenovela de Lauro César Muniz exibida em 1977. A inovação que a obra propunha (uma novela dentro da novela) não foi bem aceita pelo telespectador.


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    Marineide oliveira
    19 de setembro de 2014

    Rindo muito. Lá em casa tinha uma fileira de pessoas e gente até na janela. hehehe. Voltei no tempo!
    Beijos, Tarlei querido!


    Tarlei
    20 de setembro de 2014

    Mari, que bom saber que sua família fazia parte dos vizinhos acolhedores!!
    Bjs,
    Tarlei






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