O aluno ©
Categoria: Literatura

Tenho uma curiosidade que me leva a vários assuntos. Trata-se, infelizmente, de uma curiosidade beija-flor que permanece por pouquíssimo tempo em cada assunto. Não vou além dos pousos superficiais. Daí que eu esteja condenado àquilo que o Otto Lara Resende captou tão bem: “Com uma curiosidade que me leva a tudo, acabei uma espécie de ignorante universal”. Esse cara sou eu. A curiosidade de saber não tem a contrapartida do empenho em conquistar um saber profundo. Fico ali na espuma do conhecimento. E é da natureza da espuma a inconsistência, os contornos imprecisos, a quase nenhuma solidez. Esse tipo de curiosidade que não vai além das bordas de determinado assunto faz de mim um eterno aluno. O resultado desse bordejar pela espuma de qualquer saber é eu nada reter de substancial. Posso dizer que “sei alguns minutos de muitos assuntos” (Otto Lara Resende), o que em termos práticos quer dizer: eu não sei nada. Mas estou sempre querendo saber. E não saio desse círculo. Desconfio ter sido por isso que me encaminhei para a escrita, esse território em que jamais se sai da condição de aprendiz. Todo texto é um primeiro texto. O acúmulo da experiência não resulta em maior proveito para o escrevente. Em certo sentido, a experiência até atrapalha, porque o que se deseja em cada texto é um passo além. E quanto mais se escreve, mais difícil vai ficando esse passo além. É bem como disse Clarice Lispector: para escrever, o único aprendizado (e um aprendizado sem fim) é “a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós”. E eu sou o aluno que não se cansa de aprender com a vida.

© Nota de canapé: Livro do poeta José Paulo Paes (1926-1998).


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    Marineide oliveira
    16 de setembro de 2014

    Aluno maravilhoso, queridão! “É bem como disse Clarice Lispector: para escrever, o único aprendizado (e um aprendizado sem fim) é “a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós”.
    Beijos e obrigada!
    Mari


    Tarlei
    17 de setembro de 2014

    Aluno maravilhoso? Não creio. Maravilhoso, Mari, é esse seu mirar tão generoso. Obrigado!
    Bjs,
    Tarlei






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