Como eu se fiz por si mesmo ©
Categoria: Literatura

Nada melhor do que começar o post com um solecismo ou, em palavras corriqueiras, um erro gramatical. O erro esplende no título e diz tudo da minha formação: precária, inconclusa, incompleta, cheia de lacunas… Não ligo mais pra isso. Afinal, “é no desvio que as coisas acontecem” (Maria Esther Maciel). O fato é que, por descaminhos vários, cheguei ao cerne do meu interesse: gente e palavras. Antes disso, tentei um namoro com a filosofia. O breve namoro foi ótimo, sobretudo por confirmar: não nascemos um para o outro. Não, pelo menos, para casamento. Um flerte vez em quando é quanto basta. É que a filosofia ergue em triunfo o primado da razão e sabemos todos que a razão não está com essa bola toda. Guimarães Rosa, o feiticeiro das palavras, gostava de chamá-la a megera cartesiana. Kant cuidou (suponho, porque não o li) de desbancá-la n’A crítica da razão pura. Antônio Damásio, neurocientista, escreveu O erro de Descartes. Por tudo isso, o que ficou do meu namoro com a filosofia foi: “Nessas altas ideias navego mal” (Guimarães Rosa). Sigo diletante, um livre-pensador. O resultado? Penso, logo eis isto. Sinto a filosofia longe dos movimentos da vida. Vivemos cercados de pessoas e palavras o tempo todo. É preciso conhecer umas e outras muito bem. Isso garante em grande medida o sucesso de nossa travessia por essa estrada que vai do berço ao túmulo. Acredito profundamente nisso. Penso que quanto mais íntimo sou das palavras, mais hábil fico para desvendar as pessoas e aquilo que se oculta no mistério. Gente e palavras têm tudo a ver. As palavras são senhas poderosas que removem os véus de qualquer aparência. Sobre o poder das palavras, um professor de filosofia que conheci gostava de dizer: “Quem denomina, domina”. Com o meu arsenal de palavras, sinto-me preparado para qualquer embate. O embate de que falo é o de pôr as palavras a serviço da curva generosa da compreensão, da compaixão… Somos todos frágeis badulaques.

© Nota de canapé: Um livro delicioso do escritor paranaense Jamil Snege, falecido em 2003.


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    Tamara
    4 de março de 2011

    Admiro sua inteligência.
    Mais uma vez, parabéns!


    Angela Yvonne Barros de Oliveira
    16 de março de 2011

    Tô realizada com este texto! Vai me economizar alguns encontros com minha analista: “formação: precária, inconclusa, incompleta, cheia de lacunas…” e “é no desvio que as coisas acontecem”. Praticamente, sou eu!






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