O caderno ©
Categoria: Música

Por um tempo grande, escrevi os textos deste blog em folhas avulsas – as folhas descartadas das impressões diárias no local de trabalho. Em reaproveitava o verso das folhas ou o que sobrava de espaço nelas. Escrito o texto, e depois de passá-lo ao computador, as folhas eram descartadas. Agora que dei adeus ao trabalho, recorro aos caderninhos ordinários que servem de ninho para meus textos. Na mudança das folhas avulsas para os cadernos ordinários, o que permaneceu (e permanecerá para sempre) é a escrita à mão cobrindo de garatujas quase ininteligíveis as margens do papel. E as garatujas obedecem à velocidade do pensamento. O dramático é que, para não perder o pensamento, não é incomum que as garatujas se convertam em hieróglifos. A idade não faz diminuir a velocidade do pensamento, mas diminui, e muito, a velocidade da escrita. A conseqüência é a progressiva piora da grafia, a ponto de deixar ininteligíveis alguns registros feitos na velocidade do pensamento. Sabedor disso, tenho de cuidar que seja mínimo o espaço de tempo entre o escrever e o passar a limpo. Este é o primeiro texto no caderno da vez. E não sei se por algum prurido de estréia, o texto está até limpinho, o que não é comum. O normal dos textos é estarem cobertos de rabiscos – rabiscos que o raro leitor jamais verá, pois que os converto em traços imaculados na transposição aqui para o blog.

Do tempo das folhas avulsas, não sobrou nada. Do pouco tempo dos caderninhos ordinários, já contabilizo uma pequena coleção, toda ela preenchida com os desperdícios que não canso de apanhar no chão da vida. Minha escrita e os caderninhos ordinários em que a abrigo foram feitos um para o outro. Cheguei a ceder à tentação dos Moleskines, mas não ousei macular nenhum deles com minha escrita baldia. Gosto mesmo é do texto mantido em forma de rascunho, feito este que acabo de abrigar nas margens do meu caderno.

© Nota de canapé: Parceria de Toquinho e Mutinho.


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