Quero minha mãe ©
Categoria: Literatura

Uma praça. Uma bicicleta. Um garoto de uns dois, três anos. Uma babá. E eu – pronto para apanhar a cena que se escreve à minha frente. O garoto chora. Anda de bicicleta e chora. E se vê que não é choro de manha: é choro de puro desconsolo, é choro sentido. A babá tenta consolá-lo. Em vão. A qualquer pergunta da babá a resposta é sempre a mesma: “Quero minha mãe”. É possível que seja o primeiro dia da babá. E é certo que o garoto está vivendo aquele sentimento de orfandade advindo da separação forçada da mãe – porque a mãe do garoto, como quase todas as mães de hoje, deve trabalhar fora. Que criança entenderia essa separação? E que mãe não sente a dor de impor ao filho essa orfandade inevitável? Não há consolo possível nem para a dor da mãe, nem para a dor do filho. É viver a dor e pronto. O garoto vive sua dor chorando despudorado, chorando alto. A mãe sangra dentro de si a dor desse segundo corte umbilical. E não é possível aferir em quem dói mais esse segundo corte: se na mãe, se no filho. Mas a babá parece ter jeito com criança. Um pouco mais e o garoto já não chora, já não repete o refrão “Quero minha mãe”. Criança tem disso: passa do choro ao riso como um pássaro passa do repouso ao vôo: ao pássaro basta um movimento de asas; à criança basta qualquer frase besta. Além do mais, há o passeio de bicicleta e é preciso aproveitá-lo. Criança sabe sofrer, mas sabe como ninguém pegar o atalho da alegria. É o que vejo depois de algum tempo: a criança brinca, conversa com a babá, curte como deve ser curtido um passeio de bicicleta. Quando a dor da orfandade – que se repete todo dia – voltar a doer, o garoto voltará a chorar. Por ora, o choro já foi bastante para lavar a dor da hora. E já se vê o sol da alegria tomando conta do rosto do menino. É o que importa.

© Nota de canapé: Livro de Adélia Prado.


(2)


    Iris Morais
    7 de maio de 2016

    Muito lindo o livro. Um dilema que toda mãe passa ao ter que retornar ao trabalho e o sofrimento dos pequenos que não compreendem ainda a dinâmica da vida.


    Tarlei
    22 de maio de 2016

    Obrigado pelo comentário, Iris! A demora na resposta se deve a que não mais atualizo este puxadinho virtual, embora o mantenha faiscando no céu do ciberespaço. Aproveito para deixar o convite para uma visita a um outro recanto que mantenho no Facebook. Eis o endereço: https://www.facebook.com/groups/1767479030147613/.
    Abs,
    Tarlei






© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress