Anoitecer ©
Categoria: Literatura, Música

Na manhã de nossas vidas somos intrépidos, audazes… Queremos mudar nada menos que o mundo. À medida que o tempo nos percorre, vamos perdendo certezas e ganhando mais e mais dúvidas. E chega a hora do anoitecer. Chega a hora em que diminui a coragem e aumenta o medo. Medo de quê? Medo geral, medo que medra sorrateiro, “medo da vida, assim engatilhada”, medo das armadilhas que as células podem estar tramando nos recônditos do corpo, medo ele mesmo, assim mesmo, sem mais especificação. É o medo de saber que a hora do silêncio se aproxima. É quando a mortalidade que carregamos desde o nascimento passa a se insinuar nos pensamentos que, insistentes, nos visitam. É quando nos damos conta de que “viver é desbravar a própria finitude” (Nélida Piñon).

Não posso dizer que já faz escuro na minha vida. Diria que estou saindo do entardecer. Estou, pois, no limiar da noite. E quando o anoitecer se consumar, será hora de dizer, acatando com resignação os desígnios do tempo: “Pois que aprouve ao dia findar / Aceito a noite” (Drummond). Não se pode esquecer que dentro da noite cabem escuridões e céus estrelados. E pode ser que a noite brilhe, não porque haja estrelas no céu, mas porque há estrelas nos nossos olhos. É com brilho nos olhos que rumo para a noite. E não custa desejar que a noite seja, o quanto possível, iluminada. Em todo caso, aceito a noite que vier.

© Nota de canapé: Poema de Drummond daqueles que doem fundo. José Miguel Wisnik o musicou magistralmente. Poema e música podem ser lidos/ouvidos aqui.


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    Nathalia Leão
    4 de setembro de 2014

    Sim,Tarlei, a passagem do tempo tempera a nossa disposição, coragem e as certezas que carregamos! Muitas vezes me pego indagando porque hoje aos mais de 40 anos tenho cada vez mais dúvidas, me despeço não sem saudade das verdades que aos meus 18 anos ostentava decidida! Quantas vezes não tenho vontade de perguntar àquela menina que fui o que fazer? Certamente a menina intrépida e definida por tantas verdades não titubearia e daria a sua resposta altaneiramente! Gostaria de me aconselhar com essa jovem que mora em mim nos meus confins! O preço que o passar do tempo nos cobra é esse desnudar, a perda dos véus que nos cobrem! Sinto-me nua e transparente sendo cada vez mais desatada desses grilhões das certezas! Desato-me das verdades e lanço-me à liberdade da dúvida! A dádiva da possibilidade de trocar de opinião! Talvez não seja tão reconfortante viver com a consciência do sabor da incerteza, mas a conquista dessa potencialidade do porvir e da impossibilidade do controle me libertam! Posso alçar meus vôos cada vez mais desnudos e desatados! Um beijo, caro amigo!


    marienide Mirandai
    4 de setembro de 2014

    Belezura de texto, Tarlei!
    Um beijo carinhoso, menino imenso!
    “E pode ser que a noite brilhe, não porque haja estrelas no céu, mas porque há estrelas nos nossos olhos. É com brilho nos olhos que rumo para a noite. E não custa desejar que a noite seja, o quanto possível, iluminada. Em todo caso, aceito a noite que vier.”
    Mari


    Tarlei
    8 de setembro de 2014

    É um texto com um quê de tristezura, Mari! Mas eu me guio pela luz do poeta Thiago de Melo quando diz “Faz escuro mas eu canto”.
    Bjs,
    Tarlei


    Tarlei
    8 de setembro de 2014

    Amiga Nathalia, adorei o comentário! Tudo tão bem dito que não há nada mais a dizer… Só admirar — e agradecer. Gostei de tudo, e muito especialmente deste trecho: “Gostaria de me aconselhar com essa jovem que mora em mim nos meus confins!”.
    Bjs e obrigado!
    Tarlei






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