Desmundo ©
Categoria: Cinema, Literatura

Ouvi do escritor Gonçalo M. Tavares, em palestra na última Bienal do Livro de Brasília, a fábula do aprendiz de feiticeiro aplicada ao capitalismo. A fábula, aliás, se aplica a todos os grandes sistemas que regem nossas vidas, sejam econômicos, políticos, tecnológicos, religiosos ou de qualquer outra natureza. É no domínio da economia e da tecnologia, muito especialmente, que mais se percebe a ação dos aprendizes de feiticeiro. Como se sabe, o feiticeiro ensina ao aprendiz a palavra mágica que põe algo em movimento, não sem antes advertir ao aprendiz que não a pronuncie. O aprendiz, mesmo sabendo que lhe falta a palavra mágica que faça parar o movimento, resolve pronunciá-la, e dá início ao movimento. Uma vez a coisa posta em movimento, ficamos para sempre reféns dela e de seus desdobramentos, numa espécie de moto-contínuo. Não parece o retrato perfeito do sistema capitalista? É um sistema insustentável por excelência, mas como freá-lo? Mesma coisa quando se olha para os lados da tecnologia: quem conseguirá deter o avanço das máquinas sobre o mundo, vasto mundo? Como desfazer esses feitiços? Porque se não os desfizermos, se eles prosseguirem na sua espiral sem fim, o mundo entrará em colapso. Os sistemas que estão no volante do planeta são cada vez mais totalizantes. E todo grande sistema está sujeito à desordem entrópica que poderá aniquilá-lo. Como está tudo interligado, o que aniquila um sistema, aniquila também tudo o mais que vive em função dele. Sem querer ser apocalíptico, não parece que estamos a caminho de um desmundo? Se é verdade que muita coisa está fora da ordem, nem por isso deixo de acreditar nas “diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final” (Caetano).

© Nota de canapé: Livro de Ana Miranda. O diretor Alain Fresnot o levou para o cinema. No filme se vê a barbárie dos tempos da colonização portuguesa. Nos tempos de hoje, não perdemos a condição de colonizados – nem de bárbaros.


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    Marineide Oliveira
    26 de agosto de 2014

    Quanta verdade, menino Tarlei! Quanta verdade!!! Como sempre, imenso!!!
    Beijos,
    Mari


    Hilda
    26 de agosto de 2014

    Só você para fazer tal analogia…


    Tarlei
    28 de agosto de 2014

    Só para reforçar: apenas peguei carona na analogia que fez o Gonçalo M. Tavares.
    Bjs,
    Tarlei


    Tarlei
    28 de agosto de 2014

    Mari,
    talvez haja alguma verdade na analogia. Não se pode esquecer, porém, o que já disse alguém: “A verdade é uma só: a verdade não é uma só.”
    Bjs,
    Tarlei






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