A invenção das horas ©
Categoria: Literatura

Quem trabalha tem sempre grande parte do roteiro das horas traçado pelo patrão. Minha vida de trabalhador começou aos treze anos e foi até os… – não entremos em detalhes. Por todo esse tempo, eram poucas as horas vagas que me cabia preencher. Há exatos seis meses me libertei do ofício e retomei a posse de todas as horas úteis do meu dia. Em conseqüência, tive de assumir o encargo de inventar um modo de administrar o ócio. Se antes o saldo do dia não fosse bom, a culpa, fatal, era do ofício. Agora, se o saldo do dia não for bom, a culpa é toda minha. O que eu não tenho mais é obrigação com hora marcada. Ocupação eu tenho o tempo todo. O ócio, inclusive, é uma ocupação – e nem sempre das mais fáceis de administrar. Porque o ócio tem de resultar prazeroso. Um ócio oco, vazio, não tá com nada. Curtir os ócios do ofício requer habilidade. Creio estar me saindo bem. Não foi difícil rearranjar a rotina. O principal movimento foi o de alargar o tempo do que antes era feito nas margens das horas. Assim: o que é prazeroso foi para o centro do dia; o que é obrigação ocupa agora a periferia das horas – sempre que possível, claro! Dito assim, parece que desenho um paraíso. A verdade é que a vida de ninguém transcorre num mar de rosas. A dinâmica da vida é um constante perde-ganha. Por exemplo: com a aposentadoria, ganhei o direito de inventar as horas do meu dia; em contrapartida, perdi o prazer do convívio com muitos colegas pra lá de bacanas. Tudo tem seu preço. É preciso encarar.

© Nota de canapé: Livro magistral do Marcos Bagno, vencedor do Prêmio Nestlé de Literatura de 1988.


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