Olha o menino ©
Categoria: Música

No centro da praça, um poliesportivo. Dentro do poliesportivo, um menino. O menino está só, no gramado. Tem uns doze anos. O menino não vê que o vejo. E o que vejo é o menino treinando sozinho uns movimentos de futebol. O mais característico é o movimento em ziguezague, de trás pra frente e de frente pra trás. Para conferir alguma precisão aos movimentos, o menino marca com pedras o caminho que deve fazer – as pedras servem para marcar o tamanho do percurso e o momento exato de se movimentar para a direita ou para a esquerda. O menino executa outros movimentos, mas não me lembro quais. O movimento do ziguezague é o mais repetido, talvez por ser dos mais difíceis. Deduzo isso porque, ao fim de uma repetição, flagrei o menino se aplaudindo – sinal de que tinha executado bem o movimento ou pode ser que se tratasse de um auto-incentivo. Não foram muitos os dias de treino que eu testemunhei. Imagino que o menino estivesse com algum buraco na agenda do dia – por alguns dias. E preenchia o buraco com o auto-treinamento, mirando, quem sabe, o sonho de ser jogador. Vendo o menino tão persistente no treino, lembrei de quando treinava na máquina de escrever de um escritório para o qual tinha sido recém-contratado. O domínio da datilografia era um requisito para continuar no escritório. Ao fim de uns meses, repetindo pacientemente todas as lições de um velho manual, tornei-me um excelente datilógrafo, modéstia às favas. Que me lembre, não cheguei ao ponto de me aplaudir em nenhum momento do aprendizado – talvez porque eu não fosse mais um menino, mas já um rapaz. E o rapaz tão dedicado que fui merece um aplauso retroativo. Quanto ao menino, quem sabe não merecerá o aplauso futuro como jogador de futebol? É o que eu desejo, se for esse o seu desejo.

© Nota de canapé: Canção de Jorge Benjor.


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