Mãos dadas ©
Categoria: Literatura
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É manhã de domingo – mas não deste domingo. Venho de alguma comprinha no comércio próximo. É quando cruzo com pai e filho – este com uns oito anos. Conversam animados, e não consigo pescar nada do que se dizem – pena! No entanto, o que arrasta meu olhar como um ímã é o fato de estarem de mãos dadas. Pai e filho são meus vizinhos, mas aquele tipo de vizinhança moderna em que os vizinhos só se conhecem de vista ou, quando muito, de um cumprimento casual, sem qualquer proximidade maior. Eu me aproximo de pai e filho apenas com o olhar enternecido e os acompanho até virarem numa esquina – sempre de mãos dadas. Enquanto os acompanho, vejo que a conversa segue animada. É aquele momento em que tudo que o filho diz é importante para o pai; em que tudo que o pai diz é lição de vida e de mundo para o filho. É aquele momento em que um é todo ouvidos para o outro. O filho colhe vivências da boca do pai. O pai colhe inocência da boca do filho. O filho é o espelho em miniatura em que o pai se vê, se revê. O pai é o espelho que emoldura o mundo para o filho. É aquele momento em que se é mais totalmente pai, em que se é filho por inteiro, e as mãos dadas selam o afeto que se quer umbilical. É aquele momento em que o pai é herói de seu filho; em que o filho não deseja outro herói que não o pai. Esse tempo de total entrega, das mãos dadas, dura poucos anos – embora não vá se desgrudar nunca da parede da memória de ambos. Porque depois vem o tempo do filho dar as costas ao espelho em que não mais gosta de se ver refletido. Porque depois o pai não mais se enxerga no filho. E quando isso acontece, esse sentimento de completa intimidade só será revisitado, em plenitude, quando o pai for avô e o filho for pai. Mas agora só tenho olhos para a beleza do momento: pai e filho, de mãos dadas, sendo um do outro como o fruto e sua semente. Lindo!

© Nota de canapé: Poema de Drummond. Pode ser lido aqui.


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    Marineide Miranda s. Oliveira
    11 de agosto de 2014

    Lindo demais, Tarlei, demais!!! Beijos, menino pescador de sentimentos!


    Tarlei
    12 de agosto de 2014

    Obrigado, Mari! Esse é o tipo de texto que nasce da minha condição de “apanhador de desperdícios”. Chamo “desperdícios” a tudo que passa veloz no rio do cotidiano e que eu, amoroso, recolho. A idéia é juntar todos os “desperdícios” num livro com o título “O apanhador de desperdícios”, poema belíssimo do Manoel de Barros. Que acha?
    Bjs,
    Tarlei






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