Querido diário ©
Categoria: Música

31 de julho

Paraty, cheguei! – eis o que me digo quando, nove da noite de um dia que começou cedíssimo, acomodo na pousada a bagagem: mala, bolsas, banner, cem exemplares de Quase Nada, mesma quantidade de folders e marcadores de página etc. Tão logo piso em Paraty, esqueço toda a odisséia da viagem. Agora é cuidar de um banho, de um lanche e rumar para o show de abertura da Flip. Antes do show, ainda dá tempo de uma circulada rápida por alguns points. Na tenda dos autores, interesso-me por um evento com a Eliane Brum, oito e meia da manhã do dia seguinte – o que me leva a cancelar o desejo de dormir até mais tarde. Agora, sim, é hora do show da Gal – show que para mim é um bis: eu já o tinha visto em Brasília. De qualquer modo, é luxo só ter direito ao bis de um show inteiro. E que show! A soberana voz da Gal, o fino repertório, a pegada eletrônica dos arranjos, os três músicos jovens arrasando – barato total. Minha Flip começa em grande estilo. Fim do show, volto pra pousada. No caminho, a descoberta de um caldo quentinho – huuum! Tá servido? Ligeiro apuro na chegada à pousada: não consigo abrir o portão. Mais de meia-noite, eu sem celular (o oposto de quem pode até esquecer a chave de casa, mas não o celular), a saída é pensar em que banco de praça daria pra dormir. Antes, toques desesperados na campainha. Nada. Por fim, apelo para gritos a plenos pulmões. Funciona. O portão se abre e a funcionária da pousada, estremunhada de sono, me instrui sobre o jeitinho de abrir o portão. Refeito do apuro, é mais que hora de me recolher ao casulo do sono.

1º de agosto

De pé às 8h, é só o tempo de um rápido café antes do evento com a Eliane Brum, a rolar na Casa da Cultura. Oito e meia em ponto estou lá, um pouco esbaforido por chegar em cima da hora. Chego e descubro que, pontual no horário, estou um dia atrasado: o evento rolou no dia anterior. Bom, o jeito é cuidar do restante da agenda do dia. Ali mesmo rolarão dois eventos que me interessam: palestra sobre haicai, com Adriana Calcanhotto e Charles Peixoto, e palestra sobre tradução, com Paulo Henriques Britto, José Luiz Passos, Daniel Hahn e Sam Byers. Na hora da compra dos ingressos, pau no sistema. Alguns minutos de espera e me vem a idéia de sugerir à atendente que reserve os ingressos dos interessados, anotando nome e evento. Sugestão apoiada por todos e acatada pela atendente. Alívio! Livro-me da espera. O curto tempo de espera me permite conhecer uma moça simpaticíssima. Conversa vai, conversa vem, descubro que ela é piauiense, mora em Sampa há muitos anos e é estudante de Letras na Usp. Os dois sem companhia, meio que adotamos um ao outro. Circulamos um pouco, conversamos mais um pouco, mapeamos alguns pontos com eventos interessantes, até que nos separamos. Manhã alta, é hora de cuidar do principal objetivo do dia: livrar-me de Quase Nada. Vou à pousada, apanho os livros e sigo para a Praça da Matriz. Distribuo folders no telão da praça e na tenda da Flipinha, posiciono o banner, abro as caixas de livros e fico à espera de quem aceite um presente de Quase Nada oferecido por um escritor quase anônimo – digamos tudo: totalmente anônimo. Na hora da distribuição dos folders, já sinto o peso do desconforto. Há os que recusam o folder sem nem querer saber do que se trata. Claro que entendo a recusa, o que não impede meu enorme desconforto. Sinto que a recusa vem de pessoas muito cheias de si. E as pessoas cheias de si não têm espaço em si para o outro. Eu mesmo, embora esteja longe de me sentir cheio de mim, já adotei a atitude de recusar folhetos. Agora não mais. Seja o que for, aceito. Se não me interessar, descarto depois. O que não dá pra descartar é aquele outro que se interpôs no seu caminho e que só quer de você a disposição de estender a mão para um folheto qualquer. Isso não custa nada. O que está me custando além do esperado é a tarefa de oferecer livros a arredios leitores. O que eu penso ser uma boa estratégia (dar de presente o livro) pode merecer outra leitura: se é de graça, não deve valer nada. Dane-se. Agora vou até o fim. E os leitores vão aparecendo, uns curiosos, outros desconfiados. Entre os interessados, revoada de crianças. É quando me dou conta de que estou na Praça da Matriz, local onde se concentra a maioria das atividades para esse público. A cada vez que uma revoada pousa à minha frente, digo, a contragosto, que o livro não é para criança. É dizer isso e ver se apagar o rosto afogueado de alegria. Diferente dos adultos que às vezes dizem “não” sem nem saber do que se trata, criança diz “sim” a tudo que é de graça. E porque criança é feito passarinho, a informação voa mais que depressa de asa em asa. Tenho de espantar com o “Desculpem, o livro não é para criança” algumas outras revoadas, sem deixar de presentear as crianças que insistem. Estas apelam para “Queria tanto presentear minha mãe! Ela adora ler”, e não se furtam de pedir dedicatória. Peço o nome do filho(a) e da mãe e escrevo: “Cara fulana, sicrano(a) quis te presentear com Quase Nada. Não tenho culpa! Boa (tar)leitura!”. Metade dos livros por distribuir, tento me concentrar no telão que transmite a mesa com Eliane Brum, Charles Peixoto e Gregório Duvivier. Meu interesse é pela Eliane Brum e dela só consigo ouvir, vagamente, a leitura de trecho do romance Uma Duas. A mesa quase no fim, eu penso: não quero perder mais tempo com Quase Nada. Decido deixar o banner e o que resta de Quase Nada sobre o banco da praça. Eis que surge uma professora no meu caminho. Ao saber do meu propósito, ela não se conforma e, em pouco tempo, arregimenta uns tantos professores e outros tantos amigos. Quando dou por mim, estou sem Quase Nada. Ô alívio! Despeço-me, agradecidíssimo à professora Neuma. Além da professora Neuma, cuja atitude solidária ilumina meu dia, sou tocado por outro gesto delicado. Uma vendedora de pipoca se aproxima. No atordôo do momento não dou por ela e seu carrinho quase à minha frente. E ela resolve se aproximar (é o que presumo) quando descobre que o livro é de graça. Chega perto, pede o livro e, meio acanhada, pergunta se posso autografar – o que faço com o maior prazer. O nome da vendedora é Fabrícia. Daí a pouco ela traz a irmã Carine, também interessada no livro. De toda a saga de distribuir Quase Nada, o discreto interesse dessas duas vendedoras, que muito provavelmente não lerão o livro, é o que vai para o mais fundo da memória. Só por isso já terá valido perder a Eliane Brum, e também o Antônio Prata e a Tati Bernardi, estes em evento superconcorrido para um espaço superpequeno – a Casa Folha. O que conta é que, cem livros mais leve, agora sou todo de Paraty, da Flip. E para me sentir sendo de Paraty, circulo pelo centro histórico até à hora do próximo evento – e circular pelo centro histórico é ocasião de um precioso exercício de humildade: só é possível caminhar olhando para o chão. Circulo quase nada e já é hora do evento com Marcelino Freire na Casa Libre – libre, mas pequena, e por isso mesmo perfeita para ouvir a leitura de Totonha, Muribeca e Da Paz, contos já famosos do Marcelino, ele também conhecido pela leitura que faz deles. Muito bom! No primeiro conto, a emoção nubla os olhos e os deixo transbordar. Choro até ficar com dó de mim. De alma lavada, sigo para a Casa da Cultura. Evento lotado (Versos de risco – do haicai à poesia marginal), na platéia reconheço os escritores Tino Freitas e Leo Cunha. Adriana Calcanhotto é sempre uma presença. Segura, compenetrada, bem-humorada, ela alterna informações sobre o haicai com a leitura de alguns deles coligidos em antologia por ela organizada. Do encontro participa também o poeta Charles Peixoto, que eu não conhecia e de cuja persona passo a gostar. Reencontro no evento a minha amiga Val, a piauiense-paulistana estudante de Letras, que me presenteia com a entrada para a mesa do Antônio Prata, dia seguinte. Fim do evento, saímos os dois para um lanche de meia hora. Às oito, estamos a postos para o evento sobre tradução. Conversa ótima entre Paulo Henriques Britto e Daniel Hahn, os tradutores, e José Luiz Passos e Sam Byers, os traduzidos. Metade da conversa é em português, a outra metade em inglês, e eu, monoglota empedernido, aproveito só metade. Bom ver o Paulo à vontade, espertíssimo, mandando muitíssimo bem. Paulo é um caso raro de excelência na poesia, na prosa, e na tradução de uma e outra. Bom ver a pernamBAcanidade do José Luiz Passos. Para fechar o saldo do dia, que é dos mais positivos, ainda tem o encontro rápido com o escritor Whisner Fraga e esposa. Conversa mineira curta – mas muito boa. E chega a hora de mergulhar nas ondas envolventes do sono.

2 de agosto

Manhã tranquila, dá tempo de ler um pouquinho, navegar um pouquinho, organizar com calma a agenda do dia – que começa às 11h, no Centro Cultural Sesc Paraty. A vida nos extremos é o nome dado à mesa que reúne Márcio Ribeiro Leite (um médico intensivista que pegou um atalho na literatura), Flávio Izhaki e Wesley Peres, todos eles com um pé na psicologia, conforme esclarece o mediador Sérgio Leo. Márcio, junguiano; Flávio, freudiano; Wesley, lacaniano. O Wesley se mostra um pouco radical nas suas convicções. Eu tenho medo dos convictos radicais. Ele se diz contra a morte e contra a literatura de entretenimento. É o tipo de discussão que se esgota na própria enunciação do posicionamento. Para contemporizar, eu diria que sou contra quem só consome literatura de entretenimento, mas sou completamente a favor de que ela exista – e vai existir sempre, para além de qualquer posicionamento contrário. Sigamos. Ah, na platéia, a presença das escritoras Lúcia Bettencourt e Luísa Geisler. Duas da tarde, no mesmo Sesc Paraty, é hora da mesa Ave, palavra, assim batizada porque composta por escritores em cuja obra sobressai a marca da oralidade. São eles: Marcelino Freire, João Vereza e Arthur Cecim, mediados por Marcelo Moutinho – ótima mediação, por sinal. Marcelino já conheço bem. Ao João Vereza e ao Arthur Cecim acabo de ser apresentado. A figura do paraense Arthur Cecim me impressiona muito. O mais simples na aparência, o mais visceralmente escritor na essência – é o que me parece. Gosto quando ele diz que, em matéria de exploração da linguagem, Guimarães Rosa já tinha coberto tudo por terra. Ele, então, resolve explorar a linguagem por cima, pelo céu. Sensacional! Rogério Pereira, editor do Rascunho, pinta por lá – mas não fica. Na saída, vejo-o num papo com Miguel Sanches Neto. Agora é tomar um café e voltar para a mesa das 16h, com as agentes literárias Lucia Riff, Marianna Teixeira Soares e Nicole Witt, muito apropriadamente chamada Meio de campo. Quando volto ao mesmo Sesc Paraty, noto a presença predominante de público infantil. Acho estranho e me dou conta do equívoco: embora a mesa estivesse anunciada no folheto do Sesc Paraty, o evento está programado para a Casa da Cultura. Corro para lá, mas não há mais tempo nem ingressos. Agora é a vez da minha única mesa da Flip assistida ao vivo, graças à gentileza da minha amiga Val. É a mesa com o Antônio Prata. E o Prata é sempre muito bom de papo e de texto. Depois da mesa, um lanche. Depois do lanche, uma parada na Casa Folha para um pocket-show muito bom – não descubro o nome do músico. No embalo da boa música que rola no pocket-show, vou ouvir Edu Lobo e Cacá Diegues na mesa com que encerro a minha Flip. Muito bom ouvir Edu e Cacá desfiando pormenores de suas criações na música e no cinema. Nas andanças do dia, cruzo com a Eliane Brum, o José Rezende Jr. e o Silviano Santiago. Não falo com nenhum deles. O melhor do dia fica por conta do encontro entre o repórter Marcelo Canellas, o Chiquinho livreiro – a história do Chiquinho foi lindamente contada pelo Marcello em reportagem para o Fantástico – e o telespectador emocionado daquela história – que sou eu. Só esse encontro terá valido a minha curtíssima Flip. Amanhã cedinho bato asas daqui, não sem repetir: Eu vou mas volto, Paraty!

© Nota de canapé: Parceria de João Bosco e Aldir Blanc.


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