História de uma gata ©
Categoria: Música

Não me alimentaram, não me acariciaram; ao contrário, me machucaram. Na escuridão da noite, não pude ver nem quem nem o quê me machucou. Sei que, machucada, fui parar num quintal aonde passo todas as noites em busca do que comer. Na varanda que fica de frente pra esse quintal, sempre vejo um moço ou lendo ou escrevendo – e a cara do moço me pareceu de gente boa. Resolvi me abrigar nesse quintal. Como a fome era muita, tentei me aproximar da casa. Não fui bem recebida. Ao ser expulsa, me enfiei debaixo do carro e lá fiquei. Machucada como estava, eu não podia correr o risco de procurar abrigo em outro quintal. Minha sorte foi uma moça que apareceu na casa e, condoída de mim, me deu às escondidas um pedacinho de carne. Deu pra passar a noite sem a dor da fome, só com a dor do machucado na perna. Dia seguinte, o moço voltou a me expulsar, não com violência, mas com firmeza. Refugiei-me no quintal. Passei o dia sem comer. Acho que o moço acabou se condoendo de mim porque, no outro dia, me ofereceu uns restos de pão e um pouco de leite. Alimentada, passei o resto do dia ronronando e tomando banho de sol. Não fosse o machucado na perna, à noite eu poderia voltar à ronda dos quintais, eu poderia voltar a ser mais eu, mais gata. Antes do anoitecer, duas anjas (será que anjo tem sexo?) apareceram de repente, imagino que por iniciativa do moço ou da moça. Mesmo acostumada aos maus-tratos, farejei de cara que tinham vindo me salvar. Uma das anjas me pegou no colo, me acariciou, examinou a perna machucada, confabulou com a outra anja e decidiu me levar pra casa. Naquela hora, tive certeza de que eu estava indo para um mundo de “detefon, almofada e trato”. Mas iria sentir saudades de quando, à luz da lua, eu me juntava aos gatos da rua e saía cantando assim: “Nós, gatos, já nascemos pobres / Porém já nascemos livres / Senhor, senhora, senhorio / Felino, não reconhecerás”.

© Nota de canapé: Canção que faz parte da trilha sonora do filme Os Saltimbancos Trapalhões, por Enriquez/Bardotti/Chico Buarque. Se você mantém residência fixa na infância, não deixe de ouvi-la aqui.


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