A queda ©
Categoria: Literatura

Dedico aos meus livros um cuidado de quem os quer ter para a vida inteira. Não dobro folhas, não dobro a capa para a leitura, não deixo o livro aberto de bruços, não uso as orelhas como marcador. Apesar do cuidado, não há como evitar os sinais da passagem do tempo – e como eu adoro os livros em que o tempo imprimiu seus sinais no cheiro, nas folhas amarelecidas etc. São sinais que dão notícia de quanto tempo estão comigo. Com todo esse cuidado, só mesmo um acidente para me fazer perder algum livro. O maior dos acidentes foi o ataque de traças que me obrigou a banir da estante cerca de uma centena de livros. Mas quero contar é um prosaico acidente de que fui vítima no trajeto Brasília-Uberlândia. Viagem em dia pouco movimentado, poltrona do lado vazia, pus ali o livro que vinha lendo enquanto tirava um cochilo. Durante o cochilo, por algum movimento mais brusco do ônibus, eis que o livro cai da poltrona. E a queda foi bem em cima de uma pequena poça que havia se formado no piso do ônibus, conseqüência, suponho, de uma desregulagem no ar-condicionado. A simples queda já teria sido motivo pra minha apreensão. Ao apanhar o livro, a descoberta da tragédia: o tempo de permanência sobre a poça, que não sei quanto foi, bastou para o estrago irremediável do livro. Não tive outro recurso senão concluir a leitura e, com o coração partido, “esquecê-lo” na poltrona do ônibus. Ô, dó!!

© Nota de canapé: Livro do Diogo Mainardi, escritor (e colunista) por cuja literatura não tenho muita queda, à exceção deste livro que me chamou a atenção por seu caráter confessional (fala do filho que nasceu com paralisia cerebral).


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