Meu pedacinho de chão ©
Categoria: Televisão

Não tenho problemas de me repetir. A repetição é um traço constitutivo da minha natureza. E também da natureza da vida – que tem na repetição o seu movimento fundamental. Então vou repetir o que já escrevi sobre o meu pedacinho de chão: “Buriti é pequenino lugarejo encantado, beira planalto, nos confins de Goiás. Só quase vereda, mas tão de repente mítico”. Para falar do meu pequenino lugarejo encantado espelhei-me nas palavras do Rosa: “Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito”. Buriti é, desde sempre, cidade do coração. Estou todo naquele pedacinho de chão. Tudo o que sou, tudo o que me fiz ser, foi plantado lá. Se a vida permitiu que eu florescesse para além daquele chão, jamais me esqueço das raízes que permitiram essa floração. Buriti foi meu chão até os dezoito anos. Bem provido de chão, veio a hora de demandar outros ares – sem que eu nunca perdesse a memória da terra onde minha semente foi lançada. Já são mais de trinta anos pisando de raro em raro aquele chão de que fui tão íntimo. A cada visita sou tomado por esta sensação: a cidade em que estou não é a cidade que está em mim. Eu e ela completamente estranhos um ao outro. Completamente é exagero, claro. Se a geografia física pouco mudou, mais de trinta anos depois a geografia humana é quase inteiramente outra. Andando pelas ruas, raramente um rosto conhecido ou reconhecível por um esforço de memória. E a contrapartida que a gente não espera: também sou um rosto estranho. O rosto familiar fica reservado aos parentes e amigos próximos.

Hoje, porque é aniversário da minha querida Buriti (Buriti Alegre é o nome por inteiro, mas os de lá dizemos apenas Buriti), seria um bom dia para pisar de novo meu chão. Consolo-me sabendo que, mesmo não estando lá, Buriti está e estará em mim, para sempre.

Parabéns, Buriti!

© Nota de canapé: Telenovela de Benedito Ruy Barbosa, em exibição no horário das 18h. Merece destaque a direção primorosa de Luiz Fernando Carvalho que, com cenários e figurinos surpreendentes, dá à novela um tom de fábula que encanta. Entre tantas atuações marcantes, destaco duas, as minhas preferidas: Zelão e Coronel Epaminondas, Irandhir Santos e Osmar Prado. Entre os dois, o troféu vai para Zelão: mistura perfeita de bruteza e delicadeza de sentimentos. Vejo muitas cenas com uma insistente neblina nos olhos.


(6)


    Hilda
    24 de junho de 2014

    Tarlei, poesia natural! Presente que o velhinho lá de cima me deu, para quando eu estivesse carente de arte (e de vida). Grande e saudoso beijo.


    Marineide Miranda s. Oliveira
    24 de junho de 2014

    Tarlei,
    muito bacana seu texto! Estava lendo o pedacinho para o meu filho: “a cidade em que estou não é a cidade que está em mim.” É a mesma sensação que temos na nossa terrinha quando estamos lá. Findamos lendo o texto juntos e amamos!
    Carinhos e obrigada pelo texto, trecho, sentimentos compartilhados,
    Mari


    Luismar
    24 de junho de 2014

    Parabéns para nossa querida Buriti pelo aniversário e pra vc, Tarlei, pelo belo texto!


    Tarlei
    25 de junho de 2014

    Obrigado, primo! Não é à toa que digo que estou todo em Buriti Alegre. Repare que meu nome está inscrito no nome da cidade. Buriti Alegre contém as letras do meu nome.
    Abs,
    Tarlei


    Tarlei
    25 de junho de 2014

    Obrigado, Mari, por compartilhar sempre sua generosidade comigo!
    Abs,
    Tarlei


    Tarlei
    25 de junho de 2014

    Obrigado, minha querILDA, mestra que o destino encostou no meu caminho para eu haurir preciosas lições de vida — e da arte de viver.
    Bjs,
    Tarlei






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