Ultrapássaro ©
Categoria: Música

Viver é muito perigoso – é o que diz e rediz o jagunço Riobaldo ao longo do Grande sertão. Ninguém discorda. Além de perigoso, e porque nos foi dado viver num labirinto, viver é também muito complicado – tanto mais que nos cabe dar conta do labirinto de dentro e de fora. E escrevendo sobre esse labirinto que nos permeia e rodeia, sentenciei que, nele, “tudo nos ultrapassa”. Algo semelhante disse Clarice Lispector: “Viver ultrapassa qualquer entendimento”. Quando se trata de viver, fecho com Caetano: “Tudo é muito mais”. Se tudo nos ultrapassa, a saída é não opor resistência a nada, é deixar-se levar pela vida, leve, ultrapássaro. Quanto mais leve, mais alto se pode voar. Mesmo condenados a viver num labirinto, não nos foi tirado o direito de sonhar, de voar. Então, ultrapássaros, sonhemos, voemos… Invejamos o vôo dos pássaros, esquecidos de que o retorno ao ninho é o destino de todos eles, todos os dias. Já nós, os humanos, vivemos presos ao ninho, ou labirinto, esquecidos de que podemos voar. E voar não significa recusar o ninho, ou o labirinto – de resto impossível. O importante é manter as asas abertas, prontas a romper em vôo por alguma fresta do labirinto.

© Nota de canapé: Parceria de Dante Ozzetti e José Miguel Wisnik.


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