O casarão ©
Categoria: Televisão

Na acepção do termo, não chegava a ser um casarão, inclusive porque havia (e ainda há) na cidade uma construção muito mais digna desse nome e assim chamada por todos. Na meninice, no entanto, tudo tem uma dimensão superlativa. Então eu via a casa em frente à nossa como um casarão, sobretudo por uma parte dele viver de portas e janelas muito bem fechadas, abertas somente em dia de faxina geral. Era um casarão em L e na parte que vivia fechada ficavam sala, copa e quartos. Na outra parte do L ficavam uma varanda enorme (bem no meio) e a cozinha (na ponta). Ali viviam a dona – tabeliã do cartório da cidade –, uma sobrinha e a ajudante. Eis que chegava o dia da faxina e portas e janelas se abriam. E se abria para mim o assombro de ver a quantidade de enfeites pendurados nas paredes da sala. Na verdade, não havia paredes, havia enfeites, pois que eles as cobriam por inteiro. E não eram enfeites daqueles que se viam na maioria das casas. Eu me lembro de só ver enfeites de louça, entre os quais uma grande quantidade de pratos pintados. A lembrança do casarão, em especial dos enfeites que adornavam as paredes da sala, me veio de assistir à telenovela Meu pedacinho de chão. Está lá num dos cenários o mesmíssimo tipo de enfeite que tanto me impressionava em criança. Os enfeites do casarão não eram oferecidos à contemplação. Eu não me postava à porta para vê-los. Via-os de passagem, olhando de esguelha ao passar pela porta. Mesmo assim, era grande o efeito feérico que a visão dos enfeites provocava em mim. Parecia um lugar encantado, um lugar de maravilhas. Terminada a faxina, os enfeites voltavam à inviolabilidade da inspeção alheia, encerrados na escuridão da sala. E minha curiosidade ficava acesa à espera da próxima faxina, do próximo deslumbramento.

© Nota de canapé: Telenovela de Lauro César Muniz, exibida em 1976. A história era contada em três tempos, uma novidade na estrutura narrativa teledramatúrgica. A novidade não foi bem aceita pelo telespectador, o que não impediu a telenovela de fazer história. E na minha memória ficou a lembrança de três grandes atuações: Yara Cortes, Paulo Gracindo e Mário Lago.


(0)





© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress