Saudade dela ©
Categoria: Música

Faz exatos três anos que a madrinha Dorica encantou-se. Desde que passei a ter memória de mim, ela já era parte dessa memória. E me lembro dela tal qual está na lembrancinha acima. Quando o convívio é próximo, a passagem do tempo não se deixa ver no mapa da memória. O que mais a distinguia eram os cabelinhos de algodão, brancos feito nuvem. Essa a memória primeira dela e a que se fixou em mim para sempre. Foi doceira e quitandeira de mão cheia. Doce como sempre foi, a condição de doceira não podia ser mais apropriada. No domínio das quitandas, as broinhas de fubá – tão do meu agrado (e também do escritor Dalton Trevisan, tanto ele as espalhou nos seus contos) – eram as mais reputadas. E por serem do meu agrado, freqüentemente eu era agraciado com uma fornada delas. Da casa dela não se saía nunca sem comer alguma coisa. E todo o tempo da visita era entremeado de reiterados “Come mais um pouquinho!”. Nunca deixou de estar presente nos eventos da família: casamentos, batizados, aniversários etc. Até estar com bem mais de oitenta anos, ainda dançava nesses eventos familiares. Independente de algum evento comemorativo, era comum ela passar o dia conosco. Assim aconteceu menos de quinze dias antes da sua partida, sem que nenhum de nós tivesse pressentido tratar-se de uma despedida. Dois dias antes do que veio a ser a despedida, porque era meu aniversário, fomos visitá-la eu, minha mãe e duas tias. Mesmo não tendo condições de ir para o fogão, ela não deixava de mandar buscar um lanche para receber quem a visitasse. Não foi diferente na última vez que a visitamos. Tendo rompido a barreira de um século de vida, nunca perdeu a lucidez. O findar do desenho de uma vida é sempre carregado de dores. Tão doce era a madrinha Dorica que nunca me ocorreu que seu nome fosse Maria das Dores. E de dores ela quase nunca se queixava. Nos últimos tempos, quando se perguntava a ela “Tá boa, madrinha?”, ela respondia “Tô boa… pra jogar fora”. E soltava uma gargalhada que, claro, não era de contentamento, mas de aceitação plena daquela realidade doída. A casa dos parentes que cuidaram dela até o fim (a madrinha Dorica não teve filhos, mesmo tendo enviuvado bastante tarde) tinha dois pavimentos. No dia que ficou sendo o da última visita, me espantou que ela subisse sem ajuda os lances da escada entre um pavimento e outro. Isso mostra que ela esteve no domínio de si até o último momento. Pelo que eu soube, ela se foi como uma vela que se apaga. Enquanto viveu, iluminou um longo trecho das nossas vidas com uma chama tão discreta quanto potente. Era a pessoa mais doce que já conheci. Guardo dela um monte de coisas, em especial a fé na vida. Seus cabelos de algodão, de tão brancos, lembravam nuvens. E sempre que eu vir uma nuvem leve, deslizando suave pelo céu, vou me lembrar dela. Ave, Dorica!

© Nota de canapé: Parceria de Roberto Mendes e Nizaldo Costa gravada lindamente por Bethânia.


(0)





© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress