Um homem sem profissão ©
Categoria: Literatura

É dia do trabalho. E eu sou um homem sem profissão – e quase sob as ordens de mamãe. Digo quase porque, se eu não fico atento, minha mãe toma a frente de tudo. Ela não esconde a certeza de que os filhos (eu, minha irmã, meu irmão) são incapazes de administrar a própria vida. Coisa de mãe. No que me diz respeito, ela não está de todo errada. Mas sou eu que continuo dando as ordens no terreiro. O que importa é que, depois de trinta e um anos na faina dos números, e mais uns poucos anos em outras lidas (balconista, auxiliar de escritório), conquistei a liberdade de poder ser um homem sem profissão. Reluto um pouco em chamar de profissão o trabalho bancário – e que isso não seja lido como nenhum desapreço pela função. É que, para mim, profissão é algo que nos confere um saber útil que podemos seguir utilizando vida afora. O trabalho bancário não está nessa categoria. Tanto é assim que o saber acumulado em toda uma vida profissional é imediatamente esquecido assim que nos desligamos da atividade. Não é assim em outras profissões. Sendo um homem sem profissão, estou no meu elemento. Sou amador em tudo. E há cada vez menos espaço no mundo para a estirpe dos amadores. Por isso mesmo, insisto em levar a vida com incompetência exemplar. Começa que virei um homem sem profissão antes da hora, quero dizer, antes de ter direito à aposentadoria oficial. Resolvi financiar parte do meu ócio. Resolvi viver com menos. E, talvez, viver mais. Menos com menos dá mais, ensina-nos a matemática. Se na matemática é possível, por que não na vida? É o que venho experimentando. Desconfio que não vou me arrepender.

© Nota de canapé: Livro de memórias de Oswald de Andrade (1890-1954). O título completo é Um homem sem profissão (sob as ordens de mamãe).


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