A vida gritando nos cantos ©
Categoria: Literatura

O trajeto da volta da missa, aos sábados, costuma incluir uma parada para a compra do frango de domingo. Paro, minha mãe desce, e eu nem desligo o carro, tão rápida é a compra. Em certo sábado, apesar da rapidez, pude colher um flagrante da vida gritando nos cantos. Enquanto espero, vejo duas mulheres sentadas no chão da varanda de casa, de frente para a rua, quase de frente para o carro parado rente ao meio-fio, quase de frente pra mim. Parecia uma conversa natural. Pareciam amigas repassando lances do dia, da vida. De repente, uma delas, a mais velha, começa a chorar. É um choro discreto, contido. A mulher mais nova abraça a mulher que chora, um abraço pleno de acolhimento. Devia ser uma dor urgente, que a mulher não conseguiu segurar mesmo estando diante de uma testemunha tão próxima – que era eu, curioso e não menos solidário. Apesar da contenção, apesar da discrição das lágrimas, uma dor que dói assim tão exposta só pode ser dor muito doída. Dores de amores? Não importa. O que importa é que viver dói. E ponto. O meu desejo era só que fosse dor remediável. Para certas dores, as lágrimas são um santo remédio. SoliDORizei-me total com as lágrimas da mulher. E foi bonito ver o abraço solidário da outra mulher. Segui meu caminho. As duas mulheres continuaram sentadas no chão da varanda de casa, uma com sua dor, outra com sua solidariedade. E eu sabia que elas se entenderiam e se amparariam de um jeito que nenhum homem o faria, por sensível que fosse.

© Nota de canapé: Livro de crônicas do Caio Fernando Abreu (1948-1996), publicado postumamente.


(0)





© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress