Barulhinho bom ©
Categoria: Música

Não gosto de barulho e vivo num tempo cada vez mais barulhento. Falo do barulho que agride, que incomoda, que submerge todo tipo de barulhinho bom – barulhinho que só o silêncio revela. Quer barulhinho melhor que o de chuva mansa caindo na madrugada? As madrugadas são intervalos de silêncio em meio à barulheira geral que atravanca nossos ouvidos. É o silêncio que torna a chuva caindo um barulhinho bom. Pois hoje fui acordado ao som desse barulhinho pra lá de bom. Não foi o barulho que me acordou. É um despertar natural em que se aproveita pra verificar se já é dia. E que felicidade ao se constatar que ainda é madrugada! Aí o barulhinho bom da chuva mansa caindo vira a mais doce canção de ninar. No roteiro dos barulhinhos bons, há um outro que rivaliza com o som da chuva no telhado: o do mar quebrando na praia. Talvez não seja exato dizer que um som rivalize com o outro, afinal ambos estão ligados à água e são, portanto, sons-irmãos. O universo da água é rico de barulhinhos bons. Quem não gosta, por exemplo, do som de cachoeira, do som do tibum no córrego, do som do próprio córrego? A natureza é berço de muitos barulhinhos bons que acariciam o ouvido: canto de pássaro, galo cantando na madrugada, vento suave balançando as árvores etc. Todo barulho que vem do silêncio tende a ser bom. E há um barulho que gosto de apreciar à distância: é o barulho da algazarra que se ouve ao passar próximo de uma escola. É um barulho que transborda de vida. E vida é o que há. Por fim, há o barulhinho bom transformado em arte: a música. Mas da música nada preciso dizer: ela “fala” por si. É só fazer silêncio.

© Nota de canapé: Título de um CD de Marisa Monte.


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