A graça da coisa ©
Categoria: Literatura

É manhã de sábado, é mais uma caminhada como a de todo dia na praça de sempre. Ao redor da praça há de tudo: açougue, farmácia, padaria, hortifruti, oficina mecânica, material de construção, salão de beleza, restaurante self-service, lanchonete, borracharia etc. Da borracharia vem o acontecimento da vez, miúdo por fora, mas de grande alcance por dentro. A borracharia e a casa do borracheiro são contíguas. Eis que vejo o borracheiro tirando a caminhonete da garagem. Daí a pouco duas meninas sobem na carroceria. E junto com elas sobe uma alegria que não dá pra descrever. É um tipo de alegria que de si mesma toma mais alegria. É daquelas alegrias sem margens, sem palavras. As meninas nada falam, mas a alegria desenhada no rosto delas diz tudo. Imagino que sejam netas do borracheiro. Imagino que o passeio se repita todo sábado. E a repetição, tenho certeza, não diminui em nada a graça da coisa. Imagino que o passeio dure pouco – no tempo do relógio. No tempo da memória, dura pra sempre.

A jornalista Eliane Brum escreveu um lindo texto sobre o amor dos pais e o encerra com estas palavras: “É fácil compreender o desamor. O amor, não. O amor é um enigma”. Com a alegria acontece algo parecido. É fácil mapear os caminhos da tristeza. Os caminhos da alegria, não. Os caminhos da alegria são puro mistério revelado no próprio ato de se alegrar.

© Nota de canapé: Livro de crônicas da Martha Medeiros.


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