Da quieta substância dos dias ©
Categoria: Literatura

Desde que dei adeus aos dias doidos da vida profissional, tenho vivido as delícias da quieta substância dos dias. Comparando bem, não houve mudança tão substancial na superfície das horas. Ocupo-me o dia todo. A diferença está em poder ocupar o tempo sem a imposição de horários. Mesmo tendo uma rotina, a delícia está em poder subvertê-la a qualquer hora. Continuo dormindo e acordando cedo, por exemplo. Mas só de saber que posso fazer o oposto quando queira, que posso dar curso à vontade da hora, só isso já vale estar livre das rédeas do trabalho. A travessia dos dias agora vai no compasso do que as horas desenham. Acordo cedo, preparo o café, parto para uma hora de caminhada, tomo um banho após a caminhada, leio um pouco, escrevo um pouco, saio para comprar o que for preciso, não demora e já é hora de almoçar. Depois do almoço, um pouco de TV, um pouco de internet, mais um pouco de leitura. Daí a pouco chega a hora do café da tarde que, tal como o da manhã, eu também preparo. O dia já quase no fim, chega a noite, mais TV, alguma música, mais leitura, outro banho, e o jantar. Aí é só esperar o corpo pedir o justo descanso – e esse pedido chega quase sempre ali pelas onze da noite. Assim quase todos os dias. Assim a quieta substância dos meus dias – de que nada tenho a reclamar.

© Nota de canapé: Livro de crônicas do escritor Jurandir Ferreira.


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