Mentiras ©
Categoria: Música

Mario Quintana, com a agudeza que os poetas têm, disse duas verdades incontestáveis sobre a mentira. Uma delas diz assim: “Mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”. Que verdade sobre a mentira, não?! Quanto à outra verdade, espero que a memória não esteja me pregando uma mentira ao atribuí-la também a Mario Quintana. Diz assim (cito de “memória”): “A mentira tem pernas curtas para poder se desviar das longas pernas da verdade”. Há mentiras e mentiras. E há verdades e verdades. De verdade, não se vive sem recorrer a alguma mentira. Por isso, convém livrar a mentira do tribunal da verdade. É mais que sabido que há mentiras necessárias. Os ficcionistas são os profissionais da mentira. E quem poderia condená-los? A escritora Nélida Piñon disse certa vez que aos criadores é facultado mentir sem sanções morais. Há, claro, as mentiras condenáveis. Há, por outro lado, as mentiras saudáveis. Essas são bem-vindas, assim como as mentiras sinceras de que fala Cazuza numa canção. Os humanos mentimos. E mentimos até para nós mesmos. O que mentimos para nós mesmos tem o nome pomposo de auto-engano. A teoria do auto-engano, a propósito, mereceu um estudo aprofundado do economista Eduardo Giannetti e resultou no livro Auto-engano. Se mentimos até para nós mesmos, como esperar que a gente não minta para os outros? Quem disser que só fala a verdade, estará mentindo. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, não tinha o menor problema com a mentira. Quando começavam a acusá-lo de feitos e falas que não se sustentavam, ele – sem sinal de culpa, o que desconcertava os interlocutores – respondia candidamente: “Eu menti”. Neste texto eu não menti. Só cuidei de falar algumas verdades sobre a mentira. Juro! Ah, e uma última verdade sobre a mentira, e que a coloca em vantagem em relação à verdade: não há dia da verdade. Ou será que isso é mentira? Caso haja, não parece ser uma data comemorada. Por que será?

© Nota de canapé: Canção de Adriana Calcanhotto.


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