Tu não te moves de ti ©
Categoria: Literatura

Sou um leitor crônico. E a leitura de literatura é a mais profunda vivência de alteridade que se pode experimentar. Contudo, essa experiência é mediada e condicionada pela minha subjetividade. Leio o outro, mas com os óculos do “eu”. Não leio o outro em si mesmo. O que leio no outro é o que projeto de mim naquela dada vivência que experimento a partir de um outro. Nem por isso a leitura de literatura, e a vivência de alteridade que ela propicia, deixam de ser profundamente necessárias. É o contínuo experimentar do que se passa em outra subjetividade que expande minha subjetividade – e que lapida minha humanidade. Invocando o Rosa, “é preciso sentir até tirar as cascas da alma”. É a leitura que permite esse mergulho profundo em outros “eus”. Ouso dizer que não há outros “eus”. Há sempre eu mesmo visitando outros “eus” que, no fundo, são o mesmo “eu”. Senão o mesmo “eu”, pelo menos eu mesmo – que é a única subjetividade que experimento. Os outros “eus” que vivencio pela leitura são o meu “eu” projetado em outro “eu”. Todos os “eus” dos outros sou eu mesmo – acho. Por uma razão elementar: eu não me movo de mim. E tu não te moves de ti. Mas uma coisa é certa: eu e tu nos encontramos todos na leitura um do outro.

© Nota de canapé: Livro da fabulosa Hilda Hilst (1930-2004).


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