Ziguezagues ©
Categoria: Literatura

A epifania durou o tempo da passagem pelo portão da minha casa. E o que vi foi direto para a gaveta dos acontecimentos que, ordinários de nascença, ganham ares extraordinários. O acontecimento? Um pai e um filho. O pai carregando o filho na bicicleta. O filho naqueles banquinhos instalados entre o guidão e o selim. Pai certamente em horário de almoço. Filho certamente saindo da escolinha. A epifania? Os ziguezagues que o pai fazia de um meio-fio a outro e a tamanha alegria que isso dava ao filho. E era da mesma grandeza a alegria do pai por repartir com o filho a alegria tão gratuita de ziguezaguear pela rua. Quando os vi, eles já estavam a poucos metros de uma esquina que os levaria não sei onde. O ziguezague se ofereceu aos meus olhos atentos pelo espaço de uns poucos metros. E foi o bastante pra eu sentir a alegria do filho, a alegria do pai. A alegria seguiu com ambos, mas se repartiu comigo, testemunha silenciosa daquela epifania que desfilou tão veloz à minha frente. Um átimo de segundo e eu a perderia. Um átimo de segundo fez que ela pousasse na minha retina, e dali direto para a memória, e da memória para a tela. Eu? Agradecido por colher uma epifania na superfície do dia. E de compartilhá-la na superfície da tela. E de multiplicá-la por quem a leia. Tem toda razão a poeta Adélia Prado: “O que a memória ama fica eterno”. Mais um acontecimento que vai para o escaninho do que não se esquece. Amém!

© Nota de canapé: Livro da escritora Fanny Abramovich.


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