O jardineiro fiel ©
Categoria: Cinema

Andando próximo à minha quadra, um jardim me chama a atenção: simples demais para dizer que vinha das mãos de um jardineiro profissional; bem cuidado demais para se deduzir que vinha de mãos hábeis com as flores. Os canteiros se espalham por todo o jardim de um prédio. E no jardim vive um morador de rua. Desconfiei que jardim e morador estivessem ligados, mas não perguntei nada, fiel ao meu vício de ler em silêncio, de ler sem ser percebido. Até que a televisão trouxe para minha sala um pouco daquele jardineiro fiel. Francisco, com o consentimento dos moradores do prédio, vive há sete anos no jardim de que é autor. Pelos canteiros do jardim semeia flores. E pelos canteiros das páginas semeia palavras. Sim, o morador de rua, que tem como único vício a leitura, escreve. Cultiva flores e palavras. Do cuidado de suas mãos nascem flores. E do coração brotam palavras que o papel acolhe. Esse jardineiro fiel planta beleza e não tenho certeza se colhe beleza no chão da vida. Isso talvez só o seu canteiro de palavras dirá. Os canteiros de flores podem ser vistos por quem passeie distraído pelas imediações do jardim. Os canteiros de palavras só ele os vê, e os rega. O que floresce nas folhas em branco fica confinado nas margens do caderno. O que importa é que a autoria do jardim já o cobre de beleza, o que não impede o jardineiro fiel de continuar semeando palavras nas leiras do papel. E quem sabe se o jardim de palavras não é o espelho do jardim de flores? Assim seja!

© Nota de canapé: Belíssimo filme de Fernando Meirelles baseado na obra do escritor John Le Carré.


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