Meio intelectual, meio de esquerda ©
Categoria: Literatura

Não me incomodaria ser visto como meio intelectual, meio de esquerda, mas o que sou mesmo é nem intelectual, nem de esquerda, nem o contrário. Sou inteiro e não pela metade. Daí a ojeriza que tenho pelas polarizações em geral. Não sei me classificar, não sei me repartir em categorias. E o mundo anda sedento de categorizações. Quanto mais raso se é, mais se adere à comodidade do rótulo. Não caio nessa. Não abro mão de ser inteiro, ainda que cheio de buracos – buracos feitos de tudo que não sei nem saberei. Tento ser, simplesmente, e isso abarca tudo que é da ordem do humano. O mundo é complexo. O ser humano é um macaco complexo – como diz Caetano numa canção. Essa complexidade constitutiva que é da natureza humana impede que se viva agarrado a qualquer “velha opinião formada sobre tudo”. Talvez seja cômodo viver assim, tanto quanto não é confortável viver em clima de instabilidade perpétua, sem um porto seguro a que se agarrar – porto seguro que não há. A realidade é quântica, múltipla. Comporta inumeráveis realidades sob a realidade aparente. “Tudo é muito mais” (Caetano). Sim, nem intelectual, nem de esquerda, nem isso, nem aquilo, muito menos aquilo outro. Sou apenas alguém plugado na vida. E só o que desejo é aproximar o meu contar vagabundo / daqueles que revelam o homem no mundo / indo mais fundo / quins e guis e tais.

PSiu: A parte em itálico é paráfrase de trecho da canção Podres poderes, de Caetano Veloso. Quins e Guis são, respectivamente, os da linhagem do nosso Joaquim Maria Machado de Assis e Guimarães Rosa.

© Nota de canapé: Livro de crônicas do Antônio Prata. O Prata, assim meio sem querer, meio querendo, marcou um golaço. Leitura recomendadíssima.


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