Kamikaze ©
Categoria: Música

Lembranças de um colega com quem trabalhei um bom tempo e que teve uma morte muito triste. Era diabético, sofreu um infarto e foi encontrado no dia seguinte por uma colega de trabalho – eles se revezavam na carona. O mais triste de tudo é que ele morava sozinho e a gente ficou se perguntando se um socorro não poderia ter evitado o que houve. O colega tinha uma aparência casmurra mas era um doce de pessoa, uma desmesura de gentileza com todos. O que me fez lembrar dele foi a palavra kamikaze. Certa vez, exagerado como sou, justifiquei alguma atitude minha dizendo que eu era meio kamikaze. Ele, bem-humorado, retrucou dizendo que não há como ser MEIO kamikaze. Concordei na hora, embora deteste ser contrariado. Fiquei ruminando a minha imprecisão linguística até que me ocorreu o por que-é-que-eu-não-pensei-nisso-antes?. Ele não teria feito nenhum reparo se eu tivesse dito que determinada atitude foi consequência da minha natureza kamiquase. Fui traído pela pressa e quase perco a reputação – que não tenho nem terei. Digo tolices. De verdade, o que mais me agrada é acolher “a contribuição milionária de todos os erros” (Oswald de Andrade), é ser um anarquiteto de incontáveis ninharias, é ceder ao ímpeto de bombardear palavras com fúria kamiquase.

© Nota de canapé: Canção de Ângela Rô Rô. Para batizar sua canção, a compositora optou pelo vernáculo da palavra (Camicase). Eu preferi a forma aportuguesada Kamikaze.


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