Memórias do cárcere ©
Categoria: Literatura

Foram 31 anos de cárcere, foram 31 anos na estiva bancária. Apesar de espantado com a façanha, a verdade é que nem doeu tanto. Tive vários feitores, cada qual com seu método próprio de nos atrapalhar a vida. Entre tantos, um lá dos começos figura no topo dos mais temidos. Depois dele, tirei de letra todos os demais. E com o tempo o couro da gente vai ficando curtido. As chibatadas já nem doíam mais.

Meu primeiro dia de trabalho bancário começou sob o signo do tumulto – e os demais continuaram fiéis a esse começo. Naquele primeiro dia fui tomar posse à tarde, tendo de voltar à noite para, de fato, trabalhar. A primeira surpresa foi o local de trabalho: nunca tinha ouvido falar num tal centro de processamento. A outra surpresa foi o horário: trabalhar à noite? Será que era mesmo num banco que eu iria trabalhar? Apesar da estranheza, eu era só alegria. Só não contava com o tumulto que acabou marcando esse primeiro dia. Tomada a posse, voltei em casa para tomar banho, lanchar, descansar um pouquinho… Chegando lá, não tinha ninguém. Na certa minha mãe e os dois irmãos resolveram começar, naquele dia, a gastar por conta, inaugurando a pilha de carnês que eu liquidava com pontualidade britânica. Disso não tenho certeza, mas o fato é que tive de voltar para o trabalho cansado, sem banho e com fome. Encaminhei-me para o setor de microfilmagem e dei início à trajetória laboral que me manteve preso por 31 anos. Além de microfilmador, fui revisor de microfilme, somador de cheques, gravador (não éramos chamados de “digitadores”), conferente etc – tudo no tal centro de processamento. Depois cometi a besteira de querer ir para uma agência e lá só fiquei cuidando de estudo de operações rurais. Fiquei preso a essa função, que me enchia de preguiça e tédio, até não agüentar mais e concluir: é hora de transferir meu cárcere para Brasília. Nenhuma queixa quanto às instalações do novo cárcere, mas o regime de chibatadas continuou o mesmo, sendo maior o tempo (8 horas) que passei a ficar à mercê do feitor da hora. Lembrando agora do longuíssimo período de cárcere, só tenho saudades do encarceramento vivido no centro de processamento, mesmo trabalhando feito um remador de Ben-Hur – pagaria pra ver um trabalhador braçal mais produtivo. Nos anos finais da longa jornada a força de trabalho era quase nenhuma e estava em total descompasso com o peso da responsabilidade que a função me impunha. Levei como pude, sabendo que a alforria não tardaria a chegar.

© Nota de canapé: Livro do grande Graciliano Ramos.


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