As idéias fora do lugar ©
Categoria: Literatura

Tenho momentos de atenção absoluta e de distração idem. Não sou de perder coisas, mas estando sujeito a cair nos braços da distração, tudo é possível. Minha primeira providência ao chegar no trabalho, antes mesmo de ligar o computador, era sacar o pendrive (♪) da mochila. O pendrive ficava no mesmo compartimento do moedeiro, da chave de casa, do crachá, de uma cartela de Dorflex, de uma caneta de estimação (uma amiga me trouxe de Paris). Enfiava a mão na mochila e o procurava aos tateios. Em certa manhã repeti o gesto, mas lá não estava o pendrive. E na minha memória havia a nítida impressão de tê-lo retornado à mochila, como fazia todo dia. Entrei em pânico, tomado pelo medo de ter perdido meu bichinho. Já havia acontecido de, ao retirar algo da mochila, outra coisa vir junto. E se o pendrive tivesse caído da mochila na hora da retirada do crachá, por exemplo? A suspeita da perda do pendrive me deixou com as idéias fora do lugar. Mal consegui trabalhar naquela manhã. Hora do almoço voei pra casa, o coração quase saindo pela boca. Abri a porta de olho posto no ninho do pendrive. Lá estava ele no seu ninho, ovo prenhe dos lances da vida miúda (minha e de meus vizinhos de caminhada) que ali vou aninhando. Passada a aflição, quis entender a astúcia da desmemória. Como é possível alguém se lembrar com nitidez de algo que não fez? Concluí que a memória grava alguma coisa antes mesmo do gesto se efetivar na realidade. Algo assim: devo ter decidido guardar o pendrive. Ato contínuo, mentalmente fiz o percurso de ir até a mochila e guardá-lo, o que bastou para eu gravar o gesto na memória. Alguma coisa deve ter me distraído e não consumei o gesto. Não houve o gesto, mas já havia a memória dele. Será possível isso? Além de me fazer descobrir essa possível astúcia da memória, o episódio serviu para eu cair em brios e manter um back-up de tudo que está no pendrive. Ainda assim não me sinto seguro. E comungo com o que disse a escritora Ana Elisa Ribeiro: “Onde é que há espaços seguros neste mundo de virtualidades?”.

© Nota de canapé: Livro de ensaios de Roberto Schwarz.

(♪) Não encontrei uma fonte segura sobre a grafia correta. Optei por deixar tudo junto.


(2)


    Edna Freitass
    7 de março de 2014

    muito querido tarlei,
    simplesmente, HILÁRIO!!!
    abraços fraternos.
    edna


    Tarlei
    10 de março de 2014

    Minha querida,
    esse meu lado brincante ganhou o reforço do grande Manoel de Barros que, do alto de sua terceira infância, decretou: “Tenho preguiça de ser sério”.
    Abs,
    Tarlei






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