Os cantos
Categoria: Literatura

Começo expropriando de seu sentido original um título seminal de Ezra Pound. Os cantos de que quero falar são as casas em que vivi – das que tenho memória. As casas de Buriti foram cinco – três na cidade e duas na roça. A primeira de que me lembro é uma da roça. Ainda era filho único. Por ser uma casa perto da rodovia, eram muitos os pedintes – e pedintes maltrapilhos dos quais minha mãe morria de medo. Era ouvir batidas de palma para minha mãe me enganchar na cintura e sair correndo quintal afora. Foram muitos sustos, muitas corridas. A outra casa já era na cidade. Lá nasceu minha irmã. Lembro que a casa tinha cozinha independente. Depois veio mais uma casa na roça – casa de pau-a-pique. Por conta disso, era grande o medo de cobra. Lembro um visita que fizemos, eu e minha mãe, à sede da fazenda. Lá moravam os caseiros, Seu Arédio e esposa. Quando estávamos de saída, a esposa disse, por habitual cortesia: “Ainda tá cedo!”. Eu entendi: pão de queijo. E foi o que perguntei em voz alta: “Pão de queijo, mamãe?”. Caíram todos na gargalhada. Daí em diante, era encontrar o casal para o episódio ser lembrado sob gargalhadas. Depois veio a segunda casa da cidade – e própria. Casa simples, mas espaçosa, com quintal e mangueira frondosos. Foram alguns anos nessa casa. Minha mãe já separada, dinheiro curto, tivemos de nos mudar para uma casa menor – a casa que minha mãe comprou com o dinheiro que conseguiu receber de um patrão do meu pai. Era casa de quatro cômodos, piso de tijolo e, por um tempo, sem luz elétrica. Lá ficamos até a mudança para Uberlândia. Em Uberlândia, a primeira casa tinha forro em dois cômodos – um luxo! Ficamos pouco nessa casa. A próxima foi um barracão nos fundos da casa da dona – a Dona Luíza. Só tinha a vantagem de ser bem localizado. Tudo o mais era ruim: o pouco espaço, a falta de ventilação etc. Aí chegou a hora da casa própria comprada em leilão. A alegria veio com o ônus de ter de me entender com o mutuário que perdeu a casa por inadimplência. Superado esse obstáculo, veio a alegria de morar numa casa de conjunto, sim, mas com laje. É lá que minha mãe está até hoje. De lá ela não saiu mais – nem mesmo quando das tantas reformas. Na virada do terceiro milênio, resolvi me desgarrar do ninho (já não era sem tempo) e tentar um vôo solo em Brasília. A primeira kit, no finzinho da asa norte, foi alugada de uma colega aposentada – não precisei de fiador nem de contrato. Uns cinco anos depois, mudo-me para o quarto próprio que consegui comprar no comecinho da asa norte. É onde estou desde então. É o ninho que venho atulhando de “livros, discos, vídeos a mancheias”.


(0)





© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress