Kaya N’gan Daya ©
Categoria: Música

Sou muito certinho pra cair na gandaia. A escolha do título foi só para evocar uma música que pretendo dançar muito no dia da minha alforria. É só para marcar o cair na gandaia da liberdade. É só para assinalar o vindouro tô-nem-aí para as obrigações com hora marcada. Continuarei tendo hora para tudo, mas no espírito é como se não tivesse hora para nada. A minha gandaia é só interior. A cabeça dá mil e uma voltas. O pensamento vagueia cheio de curvas. A imaginação gira desgovernada. Por fora, sou todo “cotidiano, fútil, tributável”. Por dentro, o poço é mais escuro. Quem vê de mim apenas o que aparento, vê quase nada. E não me incomoda que me tomem pelo que aparento. Aparento feições cândidas insuspeitadas, aparento ser o equilíbrio em pessoa, aparento placidez etc. Sou o que soa, mas sou além: sou também o que silencio. Tenho sido tão desembestado por escrito! O que sou mesmo, pra valer, não vem à superfície da palavra. Fica submerso no indizível. Falo a esmo. Falo além de mim mesmo. Falo sem parar. A gandaia de escritos mais me esconde que revela. É por isso que concordo tanto com o que disse Fernando Pessoa: “Falar é a melhor maneira de nos tornarmos desconhecidos”. E todos têm de nós só o que falamos. E o que falamos não é o que somos. Ou não é tudo o que somos. O que sou? Sou um ser espantado de si, do tanto que não sabe de si. E quanto mais falo, menos sei. Só sei que nada sei. Agora me explica como um post que começa convidando a cair na gandaia termina com o socrático “só sei que nada sei”?

© Nota de canapé: Bob Marley em versão antológica do Gilberto Gil. Pode ser ouvida aqui.


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