Sampa ©
Categoria: Música

A mais completa tradução de Sampa – que hoje faz 460 anos – foi Caetano quem fez em forma de canção. Não sou íntimo da cidade, mas já perambulei muito pela dura poesia concreta de suas esquinas. As idas a São Paulo foram sempre em busca de lazer cultural, escasso na Uberlândia de então, onde eu morava. Qual lazer? Teatro, cinema, livraria, shows, bienais  – de tudo Sampa me provia. As estadas eram sempre breves, mas proveitosas. Costumava ir já com um roteiro mais ou menos definido. E tudo isso acontecia num tempo pré-internet. Portanto, nada da comodidade de comprar ingressos com antecedência, em especial para shows e peças teatrais. Como eu não conhecia bem a cidade, a saída era comprar ingressos durante o dia, o que me permitia testar o trajeto do ônibus ou metrô e com isso me sentir seguro na repetição do trajeto à noite. Mesmo não sendo íntimo da cidade, como já ficou dito, cruzei muitas vezes a famosa esquina da Ipiranga com a São João. E cruzei com os manos e as minas de Sampa  – inseparáveis uns e outros de uma discreta deselegância. Apesar de desvairada, a Paulicéia tem recantos imperdíveis: o parque Ibirapuera, o vão do Masp aos domingos, a Paulista, o Museu da Língua Portuguesa, a Pinacoteca – e o aeroporto. Digo isso porque, pra mim, a melhor viagem é a de volta pra casa. Nunca padeci na Paulicéia o que disse Nelson Rodrigues dos paulistanos: “A companhia de um paulista é a pior forma de solidão”. O que me atordoa é a profusão de ruas voando sobre ruas, é o ritmo frenético de uma cidade que não pára porque não tem onde parar. De modo que alguma coisa boa acontece no meu coração – que só quando cruza o hall do aeroporto rumo ao meu sonho feliz de cidade. Não leia no que digo, Sampa, desapreço pelo desvario caótico de seu traçado, pela floresta de arranha-céus. É que Brasília me deu curvas generosas e um vasto horizonte. No mais, parabéns, Sampa!

© Nota de canapé:  Canção de Caetano. Pode ser ouvida aqui.


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