Errática ©
Categoria: Música

Uma bênção eu ter descoberto essa vocação para a escrita errática, itinerante, que passeia por vários recantos sem se deter em nenhum deles. É o que vem garantindo a fiação verbal quase sem cortes desde que o primeiro fio foi lançado. Talvez eu desejasse escrever textos caudalosos, com consistência de rio, mas não foi de jeito. Dei mesmo foi para esses textos rasos, mínimos. Cada um dá o que pode. Antes isso do que ficar esperando tempestades criativas de quem só é capaz de uns chuviscos breves com consistência de brisa. Tudo tem seu lugar. Não me queixo. E tenho gosto em assinalar meus limites, minhas lacunas, minhas falhas. Não me ponho máscaras. Sem máscaras, digo que sou médio, mediano, um escriturário (não há melhor palavra para o meu duplo destino de bancário e escrevente) de miudezas. Essa profissão de fé é tanto a constatação de um limite quanto a admissão da incapacidade de rompê-lo. Reconhecer um limite permite melhor navegar naquilo que ele delimita. E sendo esse limite tão estreito, o mais que faço é buscar os brilhos do chão. Deve ser por isso que venho me dedicando a lavrar, larvar, tudo o que roça o limiar do chão. E o faço com uma obsessão de epistoleiro atirando palavras por todos os lados. Agora me diz se isso não é o caminho certo para quase nada? Com meus dons de camaleão, a escrita erradia, sinuosa, que se metamorfoseia conforme a necessidade, parece sob medida para mim. Com meus dons de saqueador, aproprio-me de tudo que leio e que a memória retém, como se meu fosse. Pratico sem culpa o que sentenciou Stravinsky: “Um bom compositor não imita; ele rouba”. O bom escritor deve fazer o mesmo. Eu faço, ainda que não me considere sequer escritor, quanto mais bom.


© Nota de canapé: Canção do Caetano Veloso.


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