A mulher silenciosa ©
Categoria: Literatura

No começo, nada me chamou a atenção: era só uma mulher sentada à frente de uma loja de material elétrico olhando o movimento da rua. Depois, repetindo o trajeto (a caminho da lan perto da casa de minha mãe) e a mesma cena se repetindo, comecei a prestar atenção na mulher silenciosa. Agora sei: a caminho da lan tenho encontro com a mulher e seu silêncio imperscrutável. Não sei do que a mulher sofre. Não sei se o silêncio é seqüela de algum baque físico ou emocional. Sei que a mulher não fala nunca. E tem um olhar perdido de si, feito olhasse para lugar nenhum. Ou talvez tente olhar para os abismos interiores sem nada enxergar, sem nenhuma luz boiar à tona dos olhos. Mais que um olhar perdido, é um olhar morto. Não sei quanto tempo do dia a melhor silenciosa passa sentada olhando o movimento, ela mesma sem quase nenhum movimento, inerte na cadeira. Não me parece que tenha limitação de movimentos – a imobilidade é de outra ordem. Tento ler a mulher silenciosa, mas é tudo tão etéreo, sem contorno!! É possível que a mulher seja esposa do dono do estabelecimento. Já o vi acarinhando a mulher, um carinho sem qualquer resposta. Outro dia ele lhe dava na boca uma salada de frutas. E fazia isso na frente do estabelecimento, cadeira lado a lado com a da mulher. Por mais que eu tente, aqui, desvelar um pouquinho da mulher silenciosa, ela seguirá imersa no poço do silêncio, completamente indiferente à minha tentativa de agarrá-la com algumas poucas palavras. Pobre mulher silenciosa! Pobre de mim, escrevente tentando atravessar o espesso silêncio que envolve a mulher.

© Nota de canapé: Livro do escritor Deonísio da Silva.


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