Tanto tempo ©
Categoria: Música

Amanhã faz quatorze anos que cheguei a Brasília. Não demorou muito para eu entender a geometria concreta do plano, a simetria discreta do traçado da capital. Faz quatorze anos que pousei na cidade que me deu eixo e asas. Daqui a pouco chegará a hora de bater asas novamente, de mudar o meu eixo. Sei que não será fácil encontrar em outra cidade essa combinação de eixo e asas de que tanto preciso. Nos quatorze anos vividos por aqui, trabalhei muito e me diverti outro tanto. Falemos das diversões: muito cinema, muito show, muito CCBB, muitos livros, algumas festas etc. – isso sem falar das delícias miúdas de todo dia (o café, a leitura, o almoço com uma amiga, a caminhada etc.). Confirmando o que sempre digo, quando não tenho tempo, aí consigo fazer tudo. Tanta diversão só foi possível porque eu trabalho longas oito horas todos os dias. E por não ter tempo quase nenhum, consegui fazer as duas pós que tanto me orgulham. E para aproveitar a falta de tempo, cuidei de me lançar na rede – pisco minha desimportância no céu do ciberespaço há quase quatro anos. E já que eu não tenho tempo mesmo, resolvi escrever quase todos os dias. Para completar a quota da falta de tempo, quis fazer um livro. Minha conclusão é esta: tempo só se arranja quando não se o tem. E logo virá o tempo da saudade. Das três cidades da minha vida, em Brasília é que terei vivido menos tempo. Quatorze anos nem parece tanto tempo para o tanto de ganho vivencial que me trouxe. Quando eu levantar vôo da minha asa de estimação, além da saudade embrulhada no peito, vou levar também uma irresgatável dívida de gratidão. Pra terminar, estes versos do Leminski: “Adeus, Cidade. / O erro, claro, não a lei. / Muito me admirastes, / muito te admirei”.

© Nota de canapé: Canção gravada pela Bebel Gilberto.


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