Comunidá ©
Categoria: Música

O meu clã é de gente que faz. Não desonro a estirpe familiar, mas sou de pouquíssima habilidade para quase tudo. Se me puserem tomando conta de uma churrasqueira, por exemplo, não sairá nada. Na nossa casa, essa parte ficou com meu irmão e ele se desincumbe dela muitíssimo bem. Mesmo dotado de pouca habilidade, não me recuso a pôr a mão na massa. Numa recente visita que fizemos, minha mãe e eu, a parentes de Cuiabá, houve ocasião da família exercer plenamente o lado “gente que faz”. Combinou-se um churrasco na casa de uma prima. E cada qual tomou para si uma tarefa. Nenhum convidado deixou de participar com algum tipo de ajuda. Um leva um pouco de carne, outro faz a comida, um prepara a maionese, outro cuida do vinagrete, um cuida da churrasqueira, outro busca bebida, um busca gelo, outro busca carvão, um cuida de lavar vasilhas – e todos se divertem. Sem muito esforço individual, arma-se o melhor churrasco – em quantidade, qualidade, animação – com o pouquinho de cada um. Eu fico encantado com o poder do improviso que se traduz nesses milagres de cooperação. Devo dizer que minha mãe honra com louvor esse traço familiar. Sendo a cozinha o domínio dela, assume com facilidade a função, ainda mais em casa de parente. Se não assume, auxilia com desenvoltura. O meu domínio é o da pia: lavo – e bem – o que for preciso. A verdade é que nem minha mãe nem eu nos comportamos como visitas nas visitas que fazemos. Esse espírito de comunidade está bem disseminado na família. Somos todos assim. Aprendemos desde cedo a ser assim. Meu lado preguiçoso não me permitiu desenvolver muitas habilidades. Ainda assim, creio não manchar o histórico familiar de “gente que faz”. É o que espero, pelo menos.

© Nota de canapé: Parceria de Gilberto Gil e Celso Fonseca. A gravação de Gal Costa pode ser ouvida aqui.


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