Xerazade ©
Categoria: Literatura

Xerazade é a lendária narradora das histórias d’As mil e uma noites. Mais que narradora, Xerazade era uma sedutora. E, para ela, seduzir era uma questão de sobrevivência. Ela seduzia contando histórias – histórias sem fim. Só aguçando a curiosidade do sultão ela poderia garantir que não seria decapitada ao nascer do dia, destino de todas as outras esposas que a precederam. Assim ela fez por mil e uma noites. A estratégia era interromper a história num ponto crucial, prometendo retomá-la na noite seguinte. Refém da curiosidade, o sultão não tinha outro recurso senão manter Xerazade viva. Dito isto, é hora de dizer que tenho uma amiga que é legítima herdeira de Xerazade, não porque precise fiar-se na palavra para prorrogar a vida, mas tão só pelo gosto de desfiar conversas sem fim. Se a vida da minha amiga dependesse do poder de esticar uma conversa, um assunto, ela seria imortal. Morando cada um numa cidade, nossas conversas são por escrito. E assim, de conversa em conversa, de escrito em escrito, estamos à beira das mil e uma mensagens. Não fosse esse dom de Xerazade da minha amiga, jamais teríamos ido tão longe. Mesmo quando ela se alia ao quase silêncio por escrito, nenhum silêncio é bastante para abalar-lhe a reputação de Xerazade absoluta, sempre curiosa das peripécias humanas, incansável no ofício de puxar o fio de uma conversa. E ela vai continuar assim, sem mim, sem a minha presença por escrito, quando, enfim, chegarmos à milésima primeira mensagem. A Xerazade d’As mil e uma noites não nasceu Xerazade: fez-se Xerazade. Minha amiga, até onde posso ler, é uma Xerazade nata. E o que é da gente, ninguém tira. Sorte minha que venho me beneficiando e me divertindo, por quase mil e uma mensagens, com a Xerazade incomparável que minha amiga é. Quem é minha amiga Xerazade? Não preciso fazer mistério. Ela já foi retratada aqui. Espie à vontade.

© Nota de canapé: Livro de Hélio Pólvora.


(2)


    Angela Delgado
    13 de novembro de 2013

    Essa Soninha é, com certeza, muitíssimo melhor do que a outra Xerazade, de cujas histórias não gostei. E você escreveu dois ótimos textos sobre sua amiga.


    Tarlei
    13 de novembro de 2013

    Angela,
    só conheço a fama da outra Xerazade, cujas histórias não li. A Soninha é mesmo danada. Não me espanta que ela supere sua famosa antecessora na arte da conversa.
    Abs,
    Tarlei






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