Manual da falta de estilo ©
Categoria: Literatura

Já falei bastante da minha nenhuma reputação. Hoje quero falar do meu nenhum estilo. Tamanha falta de estilo me habilita a escrever um manual da falta de estilo. Visto-me com flagrante desleixo, não uso grife nenhuma, não uso perfume, não uso xampu, não uso gravatas, freqüento a praça de alimentação de shoppings, carrego os livros numa sacolinha que vou te contar, o sapato social pouco vê graxa durante toda sua vida útil, faço a barba apenas às segundas e quartas-feiras, adoro bermuda e chinelos – e já basta para se aquilatar quão falto de estilo eu sou. Só um pormenor me salva: sou discreto. Mesmo com tanta falta de estilo, o Banco de que sou cliente entendeu que pertenço à classe dos com estilo. A lógica do Banco deve ser: quem possui determinada renda, naturalmente é detentor de algum estilo. Ledo engano. Faço um esforço sobre-humano para me manter minimamente apresentável – e não posso garantir que esteja conseguindo. Alegra-me saber que a falta de estilo deve piorar após a aposentadoria. Quem mexe com palavras, quem se interessa pela essência do que é ser humano, costuma dar muito pouco valor a quaisquer aparências. Há exceções. Nélida Piñon, por exemplo, considera que estar bem vestida é uma espécie de homenagem ao outro e a si mesma, a ponto de ela se aprontar para escrever feito fosse a um baile. Eu acho bonito isso. Daí a conseguir praticar é outra história. O que pratico mesmo, e com desenvoltura, é uma deselegância discreta – ou pelo menos me iludo que seja assim.

© Nota de canapé: Livro de Josué Machado.


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    Angela Delgado
    2 de novembro de 2013

    Bom-dia, Tarlei!
    Tudo bem que você seja rebelde. Também o sou, “mutatis, mutandis”.
    Mas um shampoo deixa o cabelo mais brilhante; um perfume (“Aqua” da Carolina Herrera é gostosinho) cai bem e uma gravata é um tesão (rs). Grife, sim, é besteira, mas custa pouco dar um dinheirinho ao engraxate. Esqueceu que você adora os humildes?


    Tarlei
    9 de novembro de 2013

    Querida Angela,
    por enquanto não tenho sentido falta de estilo. Mas se algum estilo vier a me fazer falta, não vou me furtar a incorporá-lo à minha vida, com a única exceção da gravata — sorry! Falando nela, certa vez escrevi um texto em que a condenava sem clemência. Fazendo um trocadilho com o famoso dito de um personagem de Machado de Assis, intitulei-o “Ao vencedor, as gravatas”. Ei-lo: “Embora eu prefira a famosa frase do Machado (Ao vencedor, as batatas), não resisti ao trocadilho — que cabe como luva no mundo corporativo em que estamos metidos. Sendo sincero, eu preferiria o fracasso às gravatas. Mas não calhou. E não tive peito de dizer: ‘Usar gravata? Não, não e não’. Protesto à minha maneira, mas aceito o que está posto. ‘Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar’, não posso ficar me desgastando com o periférico. Se assim é, assim seja. Usar gravatas não me tira nem me acrescenta nada. ‘Sou o que soa, eu não douro pílula’. Vejo consternado que há pessoas que se aferram a qualquer índice de superioridade. E não se reconhecem sem esses sinais. Nisso tudo, a gravata é o totem, o objeto sagrado do reino corporativo. Eu só me reconheço despido de qualquer pose. Não me dou bem com nada que me dê visibilidade. Gosto de frestas, de bastidores, de entrar e sair sem ser notado — exceção feita unicamente às entradas triunfais de que me vali durante certo tempo em certo ambiente de trabalho. Mas isso é outra história.”.
    Abs,
    Tarlei






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