Nhô Guimarães ©
Categoria: Literatura

Lemniscata – essa palavra linda – designa o nome dado ao símbolo do infinito, um 8 deitado. ‘Garrei a ‘maginar na matreirice do Rosa: pois não foi esse o símbolo que ele pôs no fim do sem-fim do Grande Sertão: Veredas? Rosa era também chegado num misticismo. Apois repare: ele adiou o quanto pôde a posse na Academia Brasileira de Letras. Pressentia que o coração ia se desgovernar com tanta emoção. Não deu outra: encantou-se três dias após a posse. Digo e repito: o que tem de ser tem muita força. Na minha travessia do Grande Sertão apanhei algumas pedrinhas faiscantes de beleza. Mire veja:

- “(…), quem de si de ser jagunço se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio.”

- “[certa qualidade de mandioca] (…) – vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas.”

- “Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor – (…).”

- “Sou só um sertanejo, nessas altas ideias navego mal.”

- “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”

-“(…), não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio (…).”

- “Amor vem de amor.”

- “Quem me ensinou a apreciar essas as belezas sem dono foi Diadorim.”

- “E se a Duzuza adivinhasse mesmo, conhecesse por detrás o pano do destino?”

- “Diadorim pôs a mão em meu braço. Do que me estremeci, de dentro, mas repeli esses alvoroços de doçura.”

- “Não me envergonho por ser de escuro nascimento.”

- “(…) buriti – verde que afina e esveste, belim-beleza.”

- “Mas, para que contar ao senhor, no tinte, o mais que se mereceu? Basta o vulto ligeiro de tudo.”

- “Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve.”

- “Voltei para os frios da razão.”

- “A gente vive o repetido, o repetido.”

- “Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”

- “Viver é um descuido prosseguido.”

- “Ele só falava por pedacinhos de palavras.”

- “Ser chefe – por fora um pouquinho amarga; mas, por dentro, é rosinhas flores.”

- “A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam.”

- “Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância.”

- “Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras de recente data.”

- “Você carecia mesmo de estudar e tirar carta-de-doutor, porque para cuidar do trivial você jeito não tem. Você não é habilidoso.”

- “E amizade dada é amor.”

- “Redemoinho: o senhor sabe – a briga de ventos.”

- “Quando é que a velhice começa, surgindo de dentro da mocidade?”

- “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

- “Pena, se tive? Vá se ter dó de canguçu, dever finezas a escorpião!”

- “O que brotava em mim e rebrotava: essas demasias do coração.”

- “O senhor escute: o buriti é das margens, ele cai seus cocos na vereda – as águas levem – em beiras, o coquinho as águas mesmas replantam; daí o buritizal, de um lado e do outro se alinhando, acompanhando, que nem que por um cálculo.”

- “A gente só sabe bem aquilo que não entende.”

- “As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas!”

“As coisas que acontecem, é porque já estavam ficadas prontas, noutro ar, no sabugo da unha.”

- “(…) vi um adejo sombrio no meu amigo, condenado que era de tristeza que não quer ceder suas lágrimas.”

- “O cachorrinho pegou a latir, nesse ofício que quase todo cão tem, de ser presumido valente.”

© Nota de canapé: Livro-homenagem do escritor Aleílton Fonseca aos 50 anos do Grande Sertão: veredas. Impossível não se envolver com as histórias com que a sábia e simples narradora, já octogenária, enlaça Nhô Guimarães.


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