Rascunho ©
Categoria: Literatura

Li que a escritora Dorothy Parker levava seis meses para escrever um conto. E só começava a escrever quando já tinha o conto imaginado do começo ao fim. Ela não conseguia sequer fazer um primeiro esboço. A razão? Ela não conseguia escrever cinco palavras sem modificar sete. Adorei isso. Adoro os obsessivos, os obcecados. Minha obsessão é de outra ordem, qual seja: a de escrever de qualquer jeito. Escrevendo de qualquer jeito, o que resulta da minha obsessão não passa de rascunho. É claro que procuro escrever com um certo capricho, mas não sou de ficar cozinhando o texto. É vapt-vupt. Escrevo meio a esmo. Faço uma espécie de sopa de letrinhas. Passou pela cabeça, eu dou um jeito de colocar no texto. Numa sopa aproveita-se de tudo. Aproveito-me de quase tudo para escrever meus textos. O que não sei é se os textos têm algo de aproveitável. Penso que o que escrevo jamais sairá do estágio de rascunho. O esquema de elaborações minuciosas não funciona para mim. Penso em escrever, não no que escrever. É a velha história da centopéia: nunca tinha tido problema para caminhar com tantas patas, até que outro bicho, espantando-se daquele feito, resolveu perguntar como ela conseguia. Nunca mais a centopéia andou. Em matéria de escrever, se penso, desisto. É claro que não escrevo totalmente às cegas. Há uma fagulha de assunto me guiando. Com essa mínima fagulha, atravesso veloz as vinte linhas de texto. Depois da travessia, sempre refaço o percurso, leio em voz alta o texto. Há sempre o que ajeitar, mas nada de muita substância. E mesmo depois de o texto seguir o seu curso, costumo voltar a ele apenas pelo gosto de o reler. A cada volta, deparo com uma vírgula demais ou de menos, uma sintaxe torta etc. É assim com textos que não saem da condição de rascunho.

© Nota de canapé: Jornal exclusivamente dedicado à literatura. Circula há dez anos graças ao empenho verdadeiramente quixotesco do seu editor, Rogério Pereira.


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    Angela Delgado
    24 de outubro de 2013

    Bom-dia, meu amigo!
    Adorei a história da centopeia e a da escritora que em cada cinco palavras, corrige sete. Lembrei-me da piadinha sobre você estar na cama, às 6 horas, fechar os olhos por cinco minutos, abri-los e constatar que o ponteiro pulou para 6h45, enquanto se está no trabalho às 13h30, e fecha os olhos por cinco minutos, ao abri-los ainda são 13h27!


    Tarlei
    24 de outubro de 2013

    Boa noite, minha amiga!
    Adorei o comentário! O trabalho é tão cruel que é bem capaz de fazer o tempo correr pra trás. Isola!!!
    Abs,
    Tarlei






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