Hoje é dia de Maria ©
Categoria: Televisão

Hoje é dia de falar da madrinha Maria, a irmã mais velha de minha mãe. Bastaria dizer dela que era uma força da natureza. Embora isso baste, quero (e preciso) dizer mais. O findar do desenho da madrinha não lembra em nada a força da natureza que acabo de dizer que ela era. O meu lugar de falar da madrinha é desde o ontem, é desde uma vida inteira – vida que passou dos noventa anos(♪). A madrinha que vale recordar é a madrinha dos almoços em família, das pamonhadas, da matança de porcos, dos passeios. A madrinha de ir buscar lenha no cerrado, de estar sempre disponível para ajudar algum dos seus, de abrir o quintal para a sobrinhada quando era tempo de jabuticabas, de rir de algum malfeito até fazer xixi nas calças. A madrinha que morava num barracão de apenas três cômodos (sem luz, sem água encanada) e onde era tão bom estar. A madrinha e sua “sabedoria agra” (Cora Coralina) cobrindo de plantas os quintais de onde morou. A madrinha mestra no manejo do algodão – seu saber ia da colheita à tecedura de uma coberta… Estar em presença da madrinha era se sentir seguro, protegido… Com ela por perto, nada de mal nos aconteceria.

Meu avô enviuvou cedo e a madrinha ficou sendo meio mãe dos irmãos todos. A madrinha não teve filhos. Casou-se e enviuvou logo – e viúva ficou para sempre. Os sobrinhos todos éramos meio filhos postiços dela. Minha irmã, entre todos, foi o maior xodó da madrinha. Embora não tenha tido filhos, criou como filha uma sobrinha – a irmã morreu no parto. A madrinha era dura na queda, de temperamento genioso, aquele tipo que implica facilmente com pessoas, que fala mal, que fala duro… Embora costumasse ter implicâncias gratuitas, quando gostava de alguém, ninguém mais doce do que ela. Quando não gostava, não havia jeito de mudar isso. Apesar da braveza toda, o natural dela era gostar. E talvez a braveza fosse só uma estratégia de defesa de alguém que teve de tomar muito cedo a vida nas mãos – uma vida que não foi nada fácil. Uma vida que se esvaiu na solidão, no silêncio, num quarto da casa da filha lá em Buriti Alegre. Inevitável não me lembrar deste poema da Adélia:

Gerou os filhos, os netos,
deu à casa o ar de sua graça
e vai morrer de câncer.
O modo como pousa a cabeça para um retrato
é o da que, afinal, aceitou ser dispensável.
Espera, sem uivos, a campa, a tampa, a inscrição:
1906-1970
SAUDADES DOS SEUS, LEONORA

Poderia falar muita coisa mais sobre a minha madrinha e por mais que eu falasse não ia conseguir evitar a sensação de ter dito muito pouco, quase nada. Há um mundo de sentimentos que a palavra não alcança – ou que minhas palavras não conseguem alcançar. Então me calo.

(♪) Faz hoje um ano que a madrinha encantou-se.

© Nota de canapé: Minissérie de TV dirigida por Luiz Fernando Carvalho.


(7)


    Nora
    9 de outubro de 2013

    Lindo, maninho! Descreveu muito bem sobre nossa querida madrinha.


    Tarlei
    9 de outubro de 2013

    Maninha, eu não podia deixar de reverenciar, hoje, a memória da nossa madrinha querida. Muita saudade dela!


    kelly cristina
    9 de outubro de 2013

    muito lindo, Tarlei. ela teve uma vida bem intensa .


    Marcio
    10 de outubro de 2013

    Meu silêncio vive intensamente tudo que foi essa santa mulher. Sua nobreza deixou marcas profundas na alma de quem te conheceu.
    Sua memória é vida pra nós. Parabéns pelas lindas palavras, Tarlei.


    Flavianny
    10 de outubro de 2013

    Como você, Tarlei, descreveu tão bem minha saudosa Vovó Maria…..


    Tarlei
    10 de outubro de 2013

    Obrigado, Flavianny! Fico contente que considere que descrevi bem a madrinha. Fui movido pela memória e pela saudade.
    Abs,
    Tarlei


    Tarlei
    10 de outubro de 2013

    Márcio,
    sei quanto é profundo o seu sentimento. Aproveito para esclarecer certo ponto do texto: quando digo “vida que se esvaiu no silêncio, na solidão (…)”, estou falando daquela solidão ontológica, irremediável. Porque a madrinha pôde contar até o fim com o cuidado da filha.
    Abs,
    Tarlei






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