Todo o sentimento ©
Categoria: Música

Começo com o ensinamento da grande Adélia Prado: “Minha mãe achava estudo / a coisa mais fina do mundo. / Não é. / A coisa mais fina do mundo é o sentimento”. Assino por inteiro. A sina de todo ser humano é ser todo sentimento, não importa que se sinta bem provido de razão. A razão do sentimento falará sempre mais alto – desconfio. Comigo é assim: sou todo sentimento. “Eu sinto mais do que penso” (Clarice Lispector). Pensar não é meu forte. Talvez por isso meu flerte com a filosofia jamais tenha chegado a um envolvimento maior. Sentir é meu fraco. Deve ser por isso que amo literatura, esse vasto repositório de vidas. Penso que “sentir até tirar as cascas da alma” (Guimarães Rosa) é o que lapida nossa humanidade. Sinto que pensar, erguendo em triunfo o primado da razão, pode nos distanciar de nossa humanidade essencial. Sentir vem sempre antes – é da ordem do instinto. Pensar vem sempre depois – é da ordem do cálculo. Sentir é escancarar-se desprotegido. Pensar é proteger-se com a armadura da razão. Eu gosto dos que se espraiam no mar aberto das emoções. Eu temo os que, plenos de certezas, ficam ancorados no suposto porto seguro da razão. Penso, logo hesito. Sinto, logo existo – existo na dimensão plena do que é ser humano. Sim, sou todo sentimento.

© Nota de canapé: Parceria de Chico Buarque e Cristóvão Bastos.


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    robervaldo
    4 de outubro de 2013

    “Sinto, logo existo…” Concordo que pensar é hesitar. Sempre me deparei em tudo com o sentimento antes de tudo e ainda bem que há gente assim, que deixa o sentimento aflorar, ser amado, pois são essas pessoas que se permitem ser amadas!!!


    Tarlei
    4 de outubro de 2013

    Olá, Roberval!
    Obrigado pelo comentário! Que bom que somos do mesmo clã: o dos que não hesitam em deixar o sentimento falar mais alto.
    Abs,
    Tarlei






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