Figura ©
Categoria: Música

Antes eu tinha muita admiração pelos competentes, pelos despachados, pelos que resolvem com facilidade desumana qualquer problema da vida prática. Hoje morro de medo de pessoas equilibradas, certinhas, assertivas, resolvidas etc. Meu olhar amoroso tem se voltado cada vez mais para os que falham, para os que se atrapalham nas menores coisas, para os que têm pânico da declaração do imposto de renda, para os despassarados – esses seres escalenos que trazem em si uma espessa humanidade. Conheci, há tempos, uma colega de trabalho assim, despassarada total. Meu contato profissional com ela foi brevíssimo. Mesmo breve, a colega é uma figura de que não se esquece. Ela parece estar sempre um degrau acima das questões comezinhas. É o tipo que não liga a mínima para o corriqueiro do ambiente de trabalho: pressões, prazos, metas, entregas, tudo isso parece pesar quase nada diante da leveza que é o seu elemento. Ela está sempre sintonizada com a própria distração, com a própria despreocupação. Acho bárbaro. Parece imperturbável. E ri gostoso dos próprios desacertos. Certo dia ela entrou no hall do prédio cantando de pura alegria – cantando mesmo, cantando desinibida, cantando alegre, cantando feliz da vida… Logo que ela entrou o guarda a chamou para dizer qualquer coisa – pareceu-me que era um elogio –, e ela, que já estava alegre, seguiu mais alegre ainda. Mais à frente ela encontrou uma moça da limpeza e lhe deu um caloroso abraço. Achei lindo. Não fosse eu o tímido que sou, teria aplaudido a colega, ser humano raro, desses que quase não se encontram mais.

© Nota de canapé: Linda canção do Orlando Morais que tem estes versos: “A mim não importa ser a sombra / Quando você é a figura”.


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    Angela Delgado
    26 de setembro de 2013

    Ai, por sua causa, “comecei” o meu pegando o pesado dicionário do Houaiss. Nunca fui boa em matemática e fui procurar o que seria um ser escaleno. Gostei. Um ser ímpar, se foi nesse sentido que você o empregou. De qualquer modo, adoro dicionários! Há sempre vários ao meu lado. Um deles já foi até comigo ao Templo Budista, onde me instalava em uma mesa em um espaço semiaberto: eu, meu livro e dessa vez um dicionário de espanhol, que atraiu um monge me perguntando – Posso colocar minha mochila na sua mesa?
    Gracinha, ele. Mas, agora, descobri um poste que ilumina bem o meu carro e fico lá, de perna esticada, lendo, claro, enquanto meu neto faz Ninjutso.
    Um bom dia pra você e sua amiga escalena! .


    Tarlei
    26 de setembro de 2013

    Querida Angela,
    seres escalenos eu peguei do poeta Manoel de Barros. Confiante na minha intuição linguística, nunca fui ao dicionário conferir. Minha intuição confere com o que você pescou no Houaiss.
    Obrigado pelo comentário, amiga escalena!
    Abs,
    Tarlei


    Angela Delgado
    27 de setembro de 2013

    Bom-dia, escritor escaleno!
    Faltou justamente a palavra “dia” logo no início do meu comentário…
    Um abraço e até…






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