O meu guri ©
Categoria: Música

Ganhei, há tempos, o apelido de “orelhudo”. Ganhei-o de um colega muito divertido, astral sempre altíssimo. O apelido não podia ser mais acertado: sou muito curioso. Embarco com facilidade nas histórias alheias. Isso acontece no ônibus, no shopping, no elevador… Falo muito pouco, mas estou sempre atento a tudo que se passa. O meu radar auditivo está sempre alerta. A curiosidade aguça o senso de observação: vejo e ouço muito. No ônibus pro trabalho, prestei atenção em uma cena comum em qualquer grande cidade: o pedinte de sinal. Nem sete da manhã e o menininho (uns nove anos, talvez) já esmolando. O que doeu mais foi vê-lo todo sujo, descalço e com uma bermuda que parecia maior que seu corpo miúdo… Fila de carros parados no eixo monumental e ele vinha, de um em um, mão estendida, pedindo quase nada (uma moedinha), mas sempre mais do que – apressados, nervosos, egoístas – estamos dispostos a dar. Mas o pior: pedindo, talvez, o que quase ninguém se dispõe a dar a meninos assim: um pouquinho de amor. E a frase do Guimarães Rosa precisa ser lembrada: “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. Fico pensando no destino desse menino: deve dormir nos arredores da rodoviária, comer o que vier da solidariedade de poucos, consumir-se em crack e esperar a morte chegar… Não, não quero ser cruel. O que eu desejo (e como desejo!) é que esse menino escape dessa ciranda macabra que entrevejo. Assim seja!

© Nota de canapé: Uma música do Chico, dessas de dilacerar a alma.


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    Angela Delgado
    18 de setembro de 2013

    Bom-dia e que ele seja melhor ainda à tarde…
    Diante da chuva esperada e inesperada, fiquei besta pensando se seria bom ou mau sinal para o que nos aguarda. Será que sairemos de alma lavada?
    Quanto a todos os menininhos de rua, o que mais me injuria é saber que eles tiveram ou têm pais, completamente irresponsáveis, que não têm onde cair mortos e ficam, egoisticamente, fazendo filhos. Isso para mim é crime hediondo.
    Um beijo!


    Tarlei
    19 de setembro de 2013

    Querida Angela,
    em tempos de embargos infringentes e afrontas deslavadas, permanecemos com a alma clamando por chuvas que a deixem lavada. Tempo virá!
    Bjs,
    Tarlei






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