Quase memória ©
Categoria: Literatura

Minha relação com a leitura de livros já dura trinta anos. E durará quanto tempo mais eu viva. De tudo o mais não tenho certeza. Disso tenho: o de que lerei até o fim. Por conta de tão longa relação – sem fim previsível nem desejável –, deu vontade de escrever as minhas memórias de leitor. Como eu estou numa fase mais de esquecer que de lembrar, talvez fosse o caso de batizá-las Desmemórias de um leitor. E chamando-as Desmemórias fico livre para toda e qualquer infidelidade. Se a memória me trai, devolvo a traição traindo-a também. E ficamos de igual para igual. Convivo bem com os meus esquecimentos desde que li essa frase do moçambicano Mia Couto: “Falar de memórias é um assunto cheio de esquecimento”. Além disso, Drummond deu a um de seus livros o subtítulo Esquecer para lembrar. Me sinto livre, então, para navegar nas águas da desmemória, inteiramente despreocupado com o que pescarei – ou não.

Apesar do termo “leitor” remeter de imediato à leitura de livros, adianto que as minhas memórias, se as escrever, vão além. É certo que a leitura de livros povoa minha desmemória, mas quero falar de um leitor total: de palavras, de imagens, de silêncios, de sons, de pessoas, de olhares, de paisagens, de lugares, enfim, do mundo. Subscrevo por inteiro o que disse Affonso Romano na crônica Ler o mundo, que faz parte do livro de mesmo nome. Pincei da crônica alguns trechos e os rearranjei a meu modo. Eis:

“Tudo é leitura. Tudo é decifração. Não é só quem lê um livro, que lê. O astrônomo lê o céu, lê a epopéia das estrelas. O físico lê o caos. Um paisagista lê a vida de maneira florida e sombreada. O corpo é um texto. Há que saber interpretá-lo. O médico (…) lê o corpo. Vem daí a semiologia. Ciência da leitura dos sinais. Dos sintomas. Daí partiu Freud para ler o interior, o invisível texto estampado no inconsciente. Tudo é texto. Tudo é narração”.

© Nota de canapé: Fabuloso livro do Carlos Heitor Cony.


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    Angela Delgado
    2 de setembro de 2013

    Bom-dia, Tarlei!
    Gostei do seu texto e coincidência é que estou lendo outro livro do Mia Couto e veja que trecho lindo: “O pranto é o consumar de duas viagens: da lágrima para a luz e do homem para uma maior humanidade. Afinal, a pessoa não vem à luz logo em pranto? O choro não é nossa primeira voz? A solução do mundo é termos mais do nosso ser. E a lágrima nos lembra: nós, mais que tudo, não somos água?” Bjs.


    Tarlei
    2 de setembro de 2013

    Boa noite, Angela!
    Lindíssimo! Em que livro do Mia está?
    Bjs,
    Tarlei


    Angela Delgado
    6 de setembro de 2013

    Bom-dia, Tarlei, que ele ainda não acabou…
    Está em “O Fio das missangas”. E vou te enviar por e-mail o que copiei de “Pensatempos”, também dele. Fantástico!
    Que amanhã haja belos protestos!
    Beijo,
    Angela


    Tarlei
    9 de setembro de 2013

    Obrigado pela dica, Angela! Vontade de ler Mia e sem livro dele aqui onde estou (Minas). Ainda bem que compartilhou parte de “Pensatempos”. Obrigado!
    Bjs,
    Tarlei






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