Tempo seco ©
Categoria: Literatura

Por aqui não chove há quase três meses. É o que basta para eu me apossar do exagero hiperbólico do Nelson Rodrigues e dizer que os candangos estamos padecendo um calor de três desertos, sem contar que o sol do meio-dia está de rachar catedrais. A previsão do tempo anuncia chuvas apenas para a segunda quinzena de setembro. E em se tratando de previsão, ainda mais se do tempo, tudo cai nos domínios do imprevisível. Enquanto isso, tome horizonte enfumaçado, tome verde nenhum, tome tonturas por causa da baixa umidade, tome desconforto térmico… Pra não dizer que é tudo desolação, a natureza regala-nos justo nessa época com a floração majestosa dos ipês. Até a natureza vegetal tem seus caprichos. Os ipês, para melhor cumprirem o ofício da beleza, explodem suas cores no momento em que tudo em volta está cinza, fosco… Ao vê-los floridos o deslumbramento é tal que a gente se pergunta: “De onde surgiu esse rosa tão perfeitamente róseo, esse branco tão lácteo, esse amarelo tão girassol?” E com essa estratégia de sedução o que ipês querem é multiplicar-se. Como? Fazendo brotar nos humanos o desejo de espalhá-los mais e mais. Diante da consumada beleza com que já nos seduziram, é claro que vamos querer mais deles florindo na paisagem, mormente (primeira vez que uso essa palavra) se for uma paisagem árida como a de Brasília nessa quadra do ano.

© Nota de canapé: Romance da jornalista Clara Arreguy.


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