A vida da gente ©
Categoria: Televisão

A vida da gente é um rosário de miudezas. Tudo o que de mais importante nos acontece, acontece no altar do cotidiano. Daí porque a grande Adélia Prado faça questão de entronizar o cotidiano. É no ordinário do cotidiano que pode se esconder o extraordinário. Basta ter olhos de ver e de sentir. Lances extraordinários? Absoluta exceção no roteiro dos nossos dias. Eu gosto mesmo é de apanhar as ninharias que pousam no chão do cotidiano. A miudeza da vez veio do local de almoço. Dentre os funcionários do local está a Deja – é assim mesmo o nome. Conheço a Deja de algum tempo. Sempre atenciosa. A função dela é recepcionar os clientes servindo-lhes um petisco qualquer. E também cuida de repor as comidas. A cozinha do local fica visível para os clientes. A Deja a toda hora chega na janelinha e ordena: eu quero isso, eu quero aquilo… E as cozinheiras que se aviem porque a Deja é exigente. Vez ou outra ouço-a repetindo: eu quero isso que ainda não veio. Vejo a Deja como uma espécie de hostess do local. Na verdade, ela faz de tudo um pouco. Ela também cuida de servir as mesas (bebida, sobremesa), recolher pratos das mesas, guardar guarda-chuvas de clientes, devolvê-los na saída… E tudo sem se descuidar de manter abastecidos os itens do cardápio. Gosto de gente assim: trabalhadeira, comprometida com o que faz. A Deja é dessas. A vida da gente é rodeada de pessoas dessa estirpe. Mas não é sempre que a gente as vê. Eu julgo ter o olho treinado para capturar o miúdo. E tudo que capturo boto no meu ninho de ninharias. Quando digo ninharias, não é com intenção pejorativa. Tenho o maior apreço por elas. São elas que nos definem. É como diz o Nelson Rodrigues: “O homem não nasceu para ser grande. O mínimo de grandeza já o desumaniza”. Viva o pequeno!

© Nota de canapé: Telenovela do horário das 18h, autoria de Lícia Manzo.


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